Prof. Fernando Marcos Nhantumbo

RSS
  • Home
  • Posts RSS
  • Comments RSS
  • Edit

AS FONTES DA HISTÓRIA DE ÁFRICA: UM BREVE OLHAR SOBRE CARACTERÍSTICAS E METODOLOGIAS

terça-feira, 2 de agosto de 2011 by Fernando Marcos Nhantumbo | 0 comentários
Por:
Fernando Marcos Nhantumbo


RESUMO


O presente ensaio apresenta uma reflexão sobre as fontes de história de África. O mesmo é desenvolvido procurando reflectir as metodologias aplicáveis para o tratamento das fontes disponíveis em África como é o caso das fontes arqueológicas, fontes orais e outras. Diversos autores apresentam diversos pontos de vista sobre as tarefas da história de África perante as questões mitológicas, fontes, métodos e concepção da própria história pelos africanos em diferentes datas. O realce é dedicado às fontes orais e arqueológicas devido à sua primazia em África e à reviravolta dos africanos na abordagem historiográfica na segunda metade do século XX, favorecida em parte pela história além-mar e movimentos nacionalistas pela independência.


ABSTRACT


This essay presents a reflection on the sources of the history of Africa. The same is developed looking reflect the methodologies applicable to the handling of fonts available in Africa as is the case of archaeological sources, oral and other sources. Several authors present diverse points of view about the tasks of the history of Africa before the mythological issues, sources, methods and design's own story by Africans on different dates. The highlight is dedicated to oral and archaeological sources due to its primacy in Africa and the turnaround of Africans in historiographic approach in the second half of the 20th century, helped in part by overseas history and nationalist movements for independence.


O estudo da historiografia africana constitui o enfoque principal dos historiadores contemporâneos. Sobre a concepção da história segundo KI-ZERBO (1999, p.34-37), é uma ciência humana que procura um certo grau de certeza e de probabilidade para reconstituição e explicação do passado do homem. Recomenda ainda que, o historiador africano deve usar também os métodos de outros historiadores do mundo em geral, e deve participar simultaneamente no seu tempo e na sua comunidade mantendo distância necessária e o seu papel de testemunha, reunindo no máximo vestígios do passado africano.

Deve-se ter em conta que o homem africano é um animal político, ele faz sua história e tem uma concepção dessa história, as obras e os factos expressam-se em formas práticas culturais. O padrão de pensamento e de vida dos africanos é influenciado pelo isolamento de sociedades e realidades sociopolíticas desde o aparecimento das primeiras sociedades . Quando se tenta abordar a história de África perante esta realidade, tem-se impressão de que os africanos estavam imersos e, como que afogados no tempo mítico, vasto oceano sem margens nem marcos, enquanto os outros povos percorriam a avenida da história, imenso eixo balizado pelas etapas do progresso (HAMA e KI-ZERBO 1982, p.61).
Apreciando o posicionamento destes autores, entende-se que os africanos têm história e para o historiador apreender essa história deve perceber o modo de concepção dessa história pelos africanos e estabelecer comparações, respeitando as realidades culturais distintas.
Avaliando a evolução da historiografia da África na perspectiva de FAGE (1982,p.43), para a respectiva compreensão tendo em conta as alteridades geográficas e culturais, deve ser subdividida em historiografias da África Ocidental, Central, Oriental e Meridional. A historiografia europeia e islâmica sempre tomou como ponto de referência para a abordagem da África do norte do Saara, os contactos com outros povos sobretudo após a expedição de Napoleão Bonaparte ao Egipto no século XVIII e fixação colonial no século XIX. A emergência de movimentos nacionalistas no norte de África deu origem às escolas autóctones de história que produzia documentos escritos em língua árabe, francês e inglês, estabelecendo equilíbrio nos estudos históricos da região.

Criticando o carácter eurocêntrico da história, OLDEROGGE (1982, p.287) afirma que os pesquisadores europeus do século XIX com ênfase para os estudiosos alemães desenvolveram uma crença de ausência deu uma história autónoma de África, para eles tudo era uma simbiose de culturas vindas de diversas correntes migratórias. Depois da Conferência de Berlim além da Alemanha que chegou a fundar um Instituto Colonial que veio a tornar-se um centro de pesquisa científica, o interesse pelo estudo de usos e costumes dos povos africanos estendeu-se para a Inglaterra e a França, onde o ensino de línguas africanas veio a iniciar depois do início da I Guerra Mundial.

Pode-se entender que os primeiros documentos escritos sobre a história de África terão resultado do contacto com os povos que usavam a escrita nomeadamente, árabes e europeus, embora as descrições eram conforme o interesse de quem escrevia.

Para África do Norte, destaca-se IBN KHALDUN (1332-1406) que na sua obra sobre as relações entre África e outras nações do Mediterrâneo e Oriente Próximo, não deixou de se preocupar com o que se passava no outro lado do Saara descrevendo o Império Mali e mais tarde alguns estados da África Oriental, este historiador veio a influenciar MARCH BLOCH na sua brilhante explicação do modelo europeu no início da Idade Media, numa altura em que os africanos perante a influência árabe passaram a utilizar textos escritos para conservação da sua história (FAGE 1982, p.45).
Para a reconstituição da história da África Ocidental e Central, as obras de IBN BATTUTA (1304-1369) e outros, são de grande importância ao descreverem regiões de África a partir de informações que puderam recolher na época em que escreveram embora não haja um meio para avaliar a veracidade da informação (p.44), No século XVI o contacto com europeus na África tropical favoreceu a produção de obras literárias que serviram de base para historiadores modernos. No século XVIII a África tropical embora cita em apêndice, mereceu mais atenção dos historiadores europeus embora a história não tivesse importância sobretudo em relação à África que era apenas mencionada no contexto do comércio de escravos (Ibid., p.44-48).

Portanto, pode-se depreender que sempre existiram alguns registos sobre a África e pode-se refutar a ideia de que a história de África começou com a colonização. Actualmente, uma das tarefas da história de África é o resgate da identidade juntando elementos dispersos de uma memória colectiva deixando de ser apêndice da história da Europa. Um dos grandes desafios é quebrar o mito de passividade histórica dos africanos e dos povos negros em geral. O sofisma e o preconceito europeu de que a África é imóvel e não tem história ilustram uma mera ignorância das transformações culturais endógenas e autónomas de África confirmadas pelas mutações técnicas, agrárias ou metalúrgicas, comércio e a própria participação dos africanos no desenvolvimento da revolução industrial (KI-ZERBO 1999, p.9-14).
Reconhecendo a barragem dos mitos para a compreensão do passado africano, deve-se sublinhar que representação mítica do passado domina o pensamento dos africanos e assim sendo coloca-se o problema da intemporalidade e dimensão social do tempo que não aborda destinos individuais mas sim da colectividade. O tempo africano engloba e integra a eternidade em todos os sentidos evocando gerações passadas no presente que de forma continuada se tornam contemporâneas onde os antepassados são agentes directos e privilegiados na vida dos africanos (HAMA e KI-ZERBO 1982, p.62).

Em algumas sociedades a concepção mítica e social do tempo entra em ruptura com a morte do soberano que paralisa uma série de actividades e ordem social. Este interregno recria o tempo social que é a história vivida pelo grupo. Os africanos de forma autónoma não desenvolveram consciência histórica responsável devido às imposições exteriores e alienantes como é o caso da escravatura, a consciência histórica era numa dimensão comunitária no quadro de uma hierarquia consuetudinária gerontocrática, rigorosa e pesada num sentimento da auto-regulação da comunidade, se tornam factos históricos porque contribuem para criar a história microcósmica da aldeia (Ibid., p.63-65).
Retomando o debate sobre o tempo social africano, a questão da cronologia se apresenta também crucial visto que um historiador que investiga o passado sem referência cronológica assemelha-se a um viajante que viaja sem noção da distância e sem rota demarcada. Os africanos tem ideia da cronologia, o tempo social constitui um dos grandes marcos cronológicos (KI-ZERBO 1999, p.18-19).

O posicionamento destes autores, chama atenção ao historiador que pretende fazer a descrição densa de um microcontexto sobre o tempo social e suas rupturas nessa região e só depois poderá de forma comparada relacioná-lo com a estrutura e conjuntura que na perspectiva moderna é abordada pela escola dos Annales.

Assim de forma específica, o próprio carácter social da concepção africana da história lhe dá uma dimensão histórica incontestável, porque e a vida crescente do grupo, na concepção global do mundo, os africanos, o tempo e o lugar onde o homem pode, sem cessar, lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital. A grande reviravolta na concepção africana do tempo se opera com a entrada do continente no universo da economia capitalista, o tempo africano foi transformado e assimilado a favor dos colonizadores (Ibidem., p.68-71).
Disto pode-se compreender que para o africano, a história não reside apenas no documento escrito mas também nas suas obras que de forma continuada estão preservadas, portanto, aqui reside o desafio dos jovens historiadores: metodologia de interpretação dos feitos culturais produzidos e guardados ao longo de gerações.
Intervindo neste assunto, DJAIT (1999,p.105) concorda com o posicionamento de FAGE (1982) que refuta a inexistência de fontes escritas sobre o passado africano e afirma que fonte escrita serve para registar a voz e o pensamento e inclui as gravações na pedra, disco, moeda, papiro, pergaminho, osso e papel e suportou o período que vai desde a invenção da escrita ate ao século XV. Esta trajectória abre um espaço para reflexões porque abrange um continente inteiro, com diversas civilizações justapostas e sucessivas e porque as fontes são línguas, tradições culturais e tipos diferentes.

Se existem as fontes escritas sobre a África então, os problemas gerais residem na falta de estudos das fontes escritas da África. No domínio da África negra há fontes clássicas, árabes e fontes propriamente africanas embora a interpretação destas fontes tem limitações e interferências conforme a língua e o posicionamento do historiador. Para a compreensão das fontes escritas de África anteriores ao século XV, altura em que as fontes orientais foram perdendo sua influência no contexto internacional, dividiu-se o estudo em três períodos principais: a antiguidade ate ao Islã: antigo Império ate +622, a primeira Idade Islâmica: de + de 622 ate a metade do século XI, a segunda Idade Islâmica: do século XI ao século XV (Ibid., p.107).

Analisando as áreas etnoculturais, temos África do Norte – portanto a África branca, mediterrânea e islamizada e a África ao sul de Saara, uma África animista, plenamente africana e de uma irredutível especificidade etno-histórica, a África central e meridional é a mais pobre em termos de fontes escritas. As fontes escritas africanas podem ser clássicas em inúmeras línguas em que foram escritas e em géneros: narrativas e arquivistas. As fontes árabes continuam sendo a base do nosso conhecimento, devem ser reconhecidas as diferenças sócio-culturais, todas as fontes valorizam uma certa solidariedade de comunicação africana (Ibidem., p.108-112).

O autor acima, insiste afirmando que fontes escritas sobre África existem, apenas houve tratamento privilegiado ou desprezível conforme o nível de contacto com as outras civilizações e o nível de motivação dos autores dessas fontes.

O resgate da história de África se afigura viável com a construção de metodologias baseadas na crítica histórica e no espírito histórico, devido à escassez de fontes escritas e uma arqueologia monumental como postulados para o estudo da sociedade humana que fez com que o seu esquecimento remetesse durante muito tempo os povos africanos fora do campo de historiadores ocidentais. Com o advento da descolonização, foi fundada a história africana, com uma diversidade de fontes, embora a metodologia estivesse em construção, visto que a variedade de fontes implica a sua utilização cruzada (OBENGA 1999,p.92).

Insistindo nas metodologias ISKANDER (1982), afirma que para a reconstituição de factos históricos com base na arqueologia, o arqueólogo começa por estudar por meios puramente arqueológicos, leitura do texto que o acompanha, procurando decifrar informações as origens, idade dos artefactos em estudo para responder às inquietações colocadas pela pesquisa. A presença em determinado sítio arqueológico de numerosos espécimes cuja substância é de origem estrangeira, parece ser uma indicação clara de que esse material foi importado através de troca ou comércio. Uma vez localizada a fonte dessa substância, torna-se fácil estabelecer o caminho seguido por ela (p.227).

Num outro desenvolvimento o mesmo autor (Ibid.) reforça:

Esse carbono 14 penetra nas plantas juntamente com os isótopos…formando seus tecidos pelo processo de fotossíntese. Como os animais se alimentam de plantas,”todo o mundo animal é vegetal deve ser ligeiramente radioactivo…no momento da morte, supõe-se que a matéria orgânica antiga tenha apresentado a mesma radioactividade que a matéria orgânica viva actualmente. Mas depois da morte, ocorre o isolamento, ou seja, toda a aquisição ou troca de radiocarbono é interrompida e o carbono 14 começa a se degradar ou como disse o professor Libby,”o relógio do radiocarbono começa a andar… (p.232) ”.

Partindo deste comentário concorda-se com a ideia de KI-ZERBO (1999, p.21-22), ao afirmar que a arqueologia em África se revela também de capital importância ao confirmar através de peças de olaria, metais e ossadas, os vestígios das migrações embora apoiada com as datações do carbono 14, enfrente dificuldades relacionadas com a deslocação para zonas inacessíveis, a erosão e as fragilidades de materiais de construção.
A tradição oral como fonte histórica para a história de África se afigura tão respeitável como os escritos embora para se validar seja um desafio pois o problema não consiste em saber se é válida a prior ou se beneficia ou não de auxílios exteriores, mas em determinar que método a adoptar para diagnosticar as tradições e seleccionar com toda a segurança aquilo que é digno de servir como fonte para a história…aliás a tradição é com frequência autocontrolada por numerosas testemunhas que velam pela sua conservação (KI-ZERBO 1999, p.20).

A tradição oral que foi durante muito tempo desprezada segundo CURTIN (1982) às vezes constitui única fonte imediatamente disponível, neste caso, a tradição oral presta uma grande contribuição valiosa ao documento escrito, orienta escavações arqueológicas, é parte integrante da base do trabalho do historiador é não foi suficientemente destacado um ponto importantíssimo: a maneira como a tradição oral apresenta o tempo, é de outro como ela apresenta os acontecimentos através do tempo (p.101).

Segundo VANSINA (1999 p.157), as civilizações africanas privilegiavam a palavra falada mesmo em regiões onde existia a escrita. A fala é vista como um meio de preservação de saberes dos ancestrais e como um meio de comunicação diária. O historiador deve iniciar-se primeiramente, nos modos de pensar da sociedade oral, antes de interpretar suas tradições. Explicando a natureza da tradição oral, comenta:

A tradição oral foi definida como um testemunho transmitido oralmente de uma geração a outra. Suas características particulares são o verbalismo e a sua maneira de transmissão, na qual difere das fontes escritas…pode ser definido de diversas maneiras, pois o indivíduo pode interromper seu testemunho, corrigir-se, recomeçar, etc…nem toda informação verbal é uma tradição. Inicialmente distinguimos o testemunho ocular, que é de grande valor, por se tratar de uma fonte imediata, não transmitida, de modo que os riscos de distorção do conteúdo são mínimos (p.158).
De forma resumida entende-se que seria quase impossível resgatar os saberes locais sem o uso das fontes orais. No caso de África e Moçambique em particular, independentemente do analfabetismo e escassez de fontes escritas, se pretendemos produzir um conhecimento histórico e cultural verdadeiramente do homem comum, deve-se considerar a primazia fontes orais.

A primazia das fontes orais depende da língua e ao usarmos a linguística devemos evitar o grande erro de confundir raça, língua e cultura, todavia pode contribuir para deduzir do parentesco linguístico um parentesco étnico ou de origem, fornecendo de certo modo uma hipótese básica e cientifica de pesquisa (KI-ZERBO1999, p.24).

Falando do contexto social da tradição, tudo o que uma sociedade considera importante para o funcionamento pleno das suas instituições, com uma identidade própria e com representações colectivas caracterizadas pela estrutura mental, para os diversos grupos sociais e seus respectivos papéis para os direitos e obrigações de cada um, tudo é cuidadosamente transmitido, somente memórias menos importantes são deixadas ou esquecidas. As tradições particulares são oficiais para o grupo que as transmite, é importante utilizar histórias familiares ou locais para esclarecer questões história política geral, seu testemunho está menos sujeito a distorção e pode oferecer uma verificação efectiva das asserções feitas pelas tradições oficiais (VANSINA 1982, p.163-164).

A história social é estudada ao nível da aldeia, da região, do grupo étnico. A história cultural é analisada em uma escala muito mais ampla que aquela do estado-nação. A história de além-mar não é apenas sobre povos europeus e não europeus, mas também de sistemas económicos, sociais, políticos e culturais dos próprios não europeus. Podemos analisar a história além-mar de forma distinta: a história autónoma da Ásia e da África e a história da expansão europeia e ganhou eco depois de 1945 quando os historiadores coloniais e seus discípulos voltaram-se para a própria história asiática e africana que provou o direito da sua existência (WESSELING 1992 p.114-131).

A ideia de VANSINA (1982), encontra enquadramento nas linhas de pesquisa da Universidade Pedagógica privilegiando a produção da história local como forma de contribuir na divulgação do mosaico cultural e contribuição à história universal.

Entre as representações colectivas que mais influenciam a tradição, notamos sobretudo uma série de categorias de base que precedem à experiência dos sentidos: do tempo, do espaço, da verdade histórica, da causalidade. Todo o povo divide o tempo em unidades, baseadas nas actividades humanas ligadas à ecologia ou em actividades sociais periódicas e fundamenta (Ibid.):

As duas formas de tempo são usadas em toda a parte. O dia é separado da noite; e dividido em partes que correspondem ao trabalho ou refeições, e as actividades são relacionadas com a altura do sol…os meses e o ano são geralmente definidos pelo ambiente e as actividades que dele dependem…a semana é determinada por um ritmo social, como por exemplo a periodicidade dos mercados…períodos mais longos que o ano são contados pela iniciação a um culto, a um grupo de idade, por reinos ou gerações. A história de famílias pode ser estabelecida com base nos nascimentos, que constituem um calendário biológico… (p.169).

Em relação à cronologia afirma que sem ela não há história, pois não se pode distinguir o que precede do que sucede. A tradição oral sempre apresenta uma cronologia relativa expressa em listas ou em gerações com abrangência geográfica mais ampla sem contudo estabelecer a sequência relativa aos acontecimentos exteriores àquela região particular e garantias de não distorção de informações sobretudo quando se eliminam ancestrais inúteis a favor de ancestrais úteis para explicação do passado. Em caso de contradições de fontes deve-se optar pela provável sobretudo com o auxílio de fontes arqueológicas e outras fontes independentes para se formar uma probabilidade com um certo grau de certeza. A colecta de tradições requer muita paciência, tempo e reflexão conforme cada caso (Ibidem., p.171-176).

O autor pretende com isto afirmar e errado pensar que as fontes orais não têm noção de cronologia de acontecimentos narrados, baseando-se no tempo social africano, as experiências são ordenadas de forma sequencial.

O debate sobre a valorização das fontes orais ganha eco quando segundo HAMPATÉ BÁ (1982, p.181-182) quando se fala da tradição, refere-se à tradição oral, que transmite conhecimentos de boca a ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos. O grande desafio é conferirmos a oralidade que até em princípio precedeu a escrita, a mesma confiança que se concede à escrita. A tradição oral é valorizada pela cadeia de transmissão com fidedignidade das memórias individual e colectivas e o valor atribuído à verdade em uma determinada sociedade.

A tradição oral não se limita às histórias e lendas ou relatos mitológicos, a tradição oral é a grande escola da vida e dela convencionamos todos os aspectos da vida e baseia-se em uma concepção do homem. A tradição oral implica conhecimento das línguas, a escola tradicional africana ensina o autocontrolo, dominar a manifestação de emoções, aprende a conter forças, integrar as experiências da vida. O conhecimento herdado da tradição oral encarna-se na totalidade do ser, a própria vida era a educação (Ibid.): a criança estará imersa em um ambiente cultural particular, do qual se impregnará segundo a capacidade de sua memória. Seus dias são marcados por histórias, contos fábulas, provérbios e máximas. (p.183-209).
Por essa razão a tradição oral (Ibidem.), tomada no seu todo, não se resume à transmissão de narrativas ou de determinados conhecimentos. Ela é geradora e formadora de um tipo particular de homem. Pode-se afirmar que existe a civilização dos ferreiros, a civilização dos tecelões, a civilização dos pastores, etc. (p.199).

A juventude vem sentindo cada vez mais a necessidade de se voltar às tradições ancestrais e de resgatar seus valores fundamentais, a fim de reencontrar suas próprias raízes e o segredo da sua identidade profunda. O pesquisador deve ser paciente, deve adaptar-se ao ambiente em pesquisa, apreender tudo para depois filtrar (Ibidem., p.217-218).

A interdisciplinaridade não deixa a história desamparada, a antropologia cultural, por exemplo, permite o estudo de traços culturais comparados e exige-se que se tenha em conta a totalidade do quadro cultural do povo em questão, a análise deve ser total e dinâmica. A arte do africano desempenhou desde a época da pré-historia, um papel criador como demonstram os centros artísticos de pinturas e gravuras rupestres da África tropical e meridional (KI-ZERBO 1999, p.26-24).

Para sustentar a tese de que a África não tinha história segundo europeus, FAGE (1982, p.50-57) denuncia que primeiramente, surgiu a antropologia como método não-histórico de estudar e avaliar as culturas e as sociedades dos povos primitivos, os que não possuíam uma história digna de ser estudada e ao longo destes anos numa escala reduzida, os africanos registavam as tradições históricas locais, certos colonizadores registavam história dos governados, seria valioso ensinar um pouco da história de África nas escolas.

Enaltecendo o papel da antropologia cultural OLDEROGGE (1982, p.291-295), aponta que os dados antropológicos fornecem referências mais estáveis frequentemente multimilenárias nos domínios da cultura e espiritual em relação à língua que pode sofrer transformações conjunturais devido às invasões ou emigrações. A distribuição dos tipos raciais modernos no continente africano reproduz, em essência, o modelo antigo dos grandes grupos antropológicos.

Reconhece-se também que o processo de formação de raças é resultante de uma interacção de múltiplos factores, mudança do biótipo e encontro de grupos diferentes que produzem de maneira gradual, a diferenciação dos traços herdados, mas também transmitem hereditariamente os traços diferenciados, sem ignorar a função do meio ambiente que com base no factor climático pode explicar a distribuição das raças pelo continente (Ibid.).

A descoberta do australopithecus provando o desenvolvimento do homem desde as origens na província de Cabo na África do Sul em 1924 e outras seguintes na Tanzânia, no Quénia e na Etiópia desacreditou as teorias até aqui defendidas sobre as origens da civilização africana. O antropólogo Arambourg sustentou que a África é o único continente que há evidências de uma evolução ininterrupta com todos os estágios do desenvolvimento: australopitecos, pitecantropos, neandertalenses e homo sapiens e os respectivos utensílios ate ao neolítico, portanto olhando para os resultados científicos do carbono 14 e o potássio-argonico que provam a evolução neolítica anterior ao da zona mediterrânea e Oriente Próximo conforme se advogava, é errado negar o desenvolvimento cultural endógeno de África (Ibidem., p.294).

Alertando a favor da interdisciplinaridade e cruzamento de fontes, o problema heurístico e epistemológico é fundamental segundo OBENGA (1982), o historiador deve estar absolutamente atento a todos os tipos de procedimentos de análise, para articular seu próprio discurso, fundamentando-se num vasto conjunto de conhecimentos…onde o conceito de “ciências auxiliares” perde cada vez mais terreno nesta nova metodologia… (p.94-96).
Com esta ideia pretende defender a tese de que a prática da história na África torna-se um permanente diálogo interdisciplinar, esboçaram-se novos horizontes de articulação metodológicas onde as outras ciências não são meramente auxiliares, de forma autónoma se tornaram nobres pela sua contribuição na nova maneira de escrever a história de África.

Avaliando a diversidade de fontes históricas de África no seu contacto com europeus, segundo HRBEK (1999, p.129), nos finais do século XV e princípios do século XVI ocorreram transformações no carácter de proveniência e volume das fontes escritas para a história de África, verificou-se um acréscimo de outros tipos de fontes tais como: as narrativas de viajantes, descrições, crónicas, adicionaram-se a estes as correspondências e relatórios oficiais, comerciais ou missionários, escrituras legais e outros documentos arquivísticos raramente encontrados antes desta época. Verificou-se também nítida redução de fontes árabes para a África subsaariana embora surgisse na época literatura autóctone escrita em árabe, auxiliada em parte pela ascensão da literatura originalmente africana, inglesa e outras línguas europeias de forma progressiva ate século XX.
As regiões costeiras foram as mais providas de documentos escritos, no norte de África no século foram tão abundantes quanto à historiografia europeia sobretudo sobre a Etiópia, único país cristão naquela época, relegando as fontes locais para o plano secundário. A África do Sul conheceu uma ascensão de fontes escritas desde a ocupação de Cabo pelos holandeses em 1652. Com a expansão comercial, missionária e colonial no século XIX, aumentou fontes históricas sobre grupos étnicos africanos, aspecto que veio a potenciar o surgimento de pontos de vista dos próprios africanos no século XX (Ibid., p.131-139).

O autor demonstra que nas zonas de maior contacto com outras civilizações há muita informação escrita em detrimento de zonas de interior de fraco contacto estrangeiros.

Olhando para a questão linguística na perspectiva de DIAGNE (1982, p.247), o negro africano estabelece uma ligação entre a história e a língua porque a história visa o conhecimento do passado e a linguística é a ciência da linguagem e da fala e assim sendo a narrativa e a obra histórica são conteúdos e formas do pensamento. A língua como um sistema e instrumento de comunicação é um fenómeno histórico e como alicerce do pensamento é o lugar e a fonte privilegiada do documento histórico.

No que respeita às para as migrações, diferenciações étnicas e linguísticas, as teorias da escola alemã influenciadas pelo Hegel e descobertas recentes destacaram – se nos estudos etnográficos e linguísticos africanos que influenciaram as escolas europeias com a tese de que os africanos não têm historia porque não contribuíram para o desenvolvimento da humanidade. A mesma tese sustentava que o desenvolvimento de África deveu-se a influência de povos camíticos vindos da Ásia que segundo Hegel e o berço da humanidade (OLDEROGGE 1982, p.288).
Classificar as línguas já é revelar o parentesco e a história dos povos que as falam. Podem-se distinguir diversos tipos: classificação genética que estabelece o parentesco e os vínculos de filiação no interior de uma família linguística; classificação tipológica que reagrupa as línguas que apresentam semelhanças ou afinidades evidentes em suas estruturas e sistemas; classificação geográfica que compara e reagrupa línguas que coexistem numa área (DIAGNE 1982, p.248-249).

O cruzamento entre os protocamitas segundo OLDEROGGE (1982) com os povos negros teria originado os povos bantu. A vaga seguinte teria sido constituída por semitas que fundaram a civilização egípcia antiga que mais tarde veio a receber outras vagas migratórias constituída pelos hicsos e hebreus que afixaram-se na Etiópia antes da chegada dos árabes no século VII. Portanto pretendia com estes estudos provar que a civilização africana era o resultado destes povos que trouxeram novos elementos da civilização antes desconhecidos pelos africanos. Com base nestes dados deve-se reconhecer o papel da África como pólo da disseminação, no que refere tanto aos homens quanto as técnicas em um dos mais importantes períodos da história humana - Paleolítico Inferior (p.290-291).


TENDÊNCIAS RECENTES DAS PESQUISAS HISTÓRICAS AFRICANAS E CONTRIBUIÇÃO À HISTORIA EM GERAL


A África segundo WESSELING (1992) foi considerada a-histórica, apenas entra na história no contacto com a colonização. A partir do século XX com o surgimento da escola dos Annales, apesar de escassas fontes escritas africanas ditadas por razões culturais, novas fontes tiveram que ser descobertas para não depender de fontes exógenas. Realça-se o trabalho desenvolvido por Vansina que dividiu a tradição oral em cinco categorias (formulários, poesia, inventários, narrativas, comentários), cada uma com várias subdivisões e adianta que a história oral não deveria ser aceite tacitamente…prestando-se atenção ao impacto da importância social, dos valores culturais e da personalidade dos escritores. Deveria também, tanto quanto possível, ser colocada em confronto com outras fontes… (p.110-111).

O passado da África tal como é visto pelos africanos representa uma tomada de consciência indispensável ao estabelecimento de sua identidade em um mundo diverso é em mutação, portanto os historiadores devem reatar os laços com a experiência histórica dos povos africanos entrando em ruptura com a historiografia eurocêntrica veiculada no século XIX. A revolução no campo de estudos de história após a segunda guerra mundial, fez com que a história abandonasse a crónica para uma ciência social que estudasse a evolução da sociedade humana, libertando-se de preconceitos nacionais para uma visão mais ampla, estudando regiões anteriormente negligenciadas, onde os historiadores africanos tinham como preocupação principal provar que a África tem história (CURTIN 1999,p.73-77).

Durante a vaga dos movimentos nacionalistas pela independência, os historiadores africanos desempenharam um grande papel na história (Ibid.):
Os especialistas em ciência política que escreveram no período dos movimentos de independência derrubaram as barreiras. Pouco depois, sobretudo durante os anos 60, os estudiosos começaram a retroceder no tempo, buscando as raízes da resistência e dos movimentos de protesto no início da época colonial e, mais longe ainda, nas primeiras tentativas de resistência no jugo europeu. Estes trabalhos sobre os movimentos de resistência e de protesto constituem uma importante contribuição para corrigir os desvios da história colonial, mas ainda estamos longe de considerar a história da África com objectividade…certos historiadores, porém, começaram a buscar um método interdisciplinar que lhes permita iniciar o estudo da história… (p.78).

O autor esclarece que a segunda Guerra Mundial e suas consequências terão contribuído decisivamente para o papel activo das jovens nações no resgate à sua história.

De forma interventiva os africanos deram os primeiros passos para registar a sua própria história quando partir de 1947 a Société Africaine de Culture e sua revista Présence Africaine empenharam-se na promoção de uma história da África descolonizada numa altura em que uma geração de intelectuais africanos usando experiências europeias desenvolvia seus próprios enfoques em relação ao passado africano, buscando identidade ofuscada pela colonização e se desembaraçavam de mitos e todas as dificuldade que a historiografia africana apresentava (FAGE 1982 p.58).
Em 1948 assistiu-se à multiplicação de universidades africanas consolidadas com as independências a partir de 1955, equiparando-se às outras pelo mundo, embora sem recursos viradas para a historiografia africana assegurada pelos intercâmbios interafricanos e as lutas pela independência que contribuíram para que os africanos entrassem em contacto com a sua história que em parte teve patrocínios da UNESCO cujo projecto iniciou em 1969 (Ibid., p.59).

Os jovens historiadores enfrentaram um desafio visto que em África há raridade e má distribuição de fontes escritas, sendo as fontes árabes mais importantes por elucidarem períodos obscuros da história de África e sem negarmos o valor da escrita, a mais rica das possibilidades para explorar a história do passado e a história total: o homem tornou histórico tudo aquilo que tocou com a sua mão criadora: a pedra, como o papel, os tecidos como metais, a madeira como as jóias mais preciosas…somos por história de múltiplas fontes e polivalente (KI-ZERBO 1999, p.15-17).
Com a descolonização, Segundo WESSELING (1992) o declínio da Europa e o surgimento de novos superpoderes, novas políticas e ideologias ditaram novas abordagens e objecto da história passando a se interessar pela história das mentalidades e homem comum. As jovens nações desenvolveram próprios departamentos de história embora continuassem ligados aos arquivos ocidentais para resgatar um passado usável, nacionalista e anti-colonial. As nações não-europeias descobriram seu próprio passado e apresentaram sua própria interpretação dele, mas foi exactamente que o problema da história de além-mar se manifestou sob uma nova forma (p.104).

A historiografia africana, assegurada pela formação de historiadores africanos, caminhou largos passos para lançar métodos novos e cobrir zonas não suficientemente exploradas, a criação de novas universidades na década 50 criou a necessidade de uma história renovada da África, considerada de um ponto de vista africano, com temas africanos de aprendizagem, no reencontro com a história do mundo, embora, até 1960 houvesse apenas 74 teses referentes na maior parte à África do norte (CURTIN 1999,p.50-85).

Para WESSELING (1992), a história de além-mar embora se define em diferentes perspectivas por cada potência colonial, trata-se não somente dos sistemas coloniais e do encontro entre europeus e não europeus em geral, mas também da história económica, social, política e cultural dos povos não europeus (p.98).

O historiador de além-mar, suposto a possuir uma educação mais ampla, conhecimento de outras civilizações e habilidades linguísticas, confronta-se com dois tipos de fontes: as fontes europeias, em maior parte arquivistas e fontes não-europeias, escritas ou não, são auxiliadas por outras disciplinas numa tendência interdisciplinar. A colaboração com outros historiadores pode contribuir para perceber o que está acontecendo dentro da própria disciplina, por exemplo, o mundo ultramarino dos impérios coloniais não é necessariamente hoje o chamado Terceiro Mundo (Ibid., p.98-99).

A ascensão da história além-mar depois da Segunda Guerra Mundial, deveu-se ao estímulo do próprio colonialismo com a educação de servidores indígenas e às reivindicações das jovens nações, outrora sem história que se tornavam objecto de estudo, sobre o seu passado colonial. Numa visão geral, a historiografia asiática, desenvolvida de forma comparada com historiografia europeia no século XIX, tende a ser cronológica, valoriza a singularidade dos acontecimentos e cada período tem carácter específico (Ibidem., p.100-101).

Pode-se concluir que a história de África começou a registada pelos árabes nas zonas onde existiu contacto sobretudo antes do século XV. Depois desta data as fontes escritas sobre África estão relacionadas com a colonização. Nova postura historiográfica surge no pós - segunda guerra Mundial no contexto da história além-mar e movimentos nacionalistas pela independência em África. Alargamento de fontes aliado ao uso de metodologias apropriadas e a condição para que de forma autónoma os africanos resgatem os saberes enterrados neste continente.



BIBLIOGRAFIA


BOUBOU, Hama e KI-ZERBO, Joseph. Lugar da história na sociedade africana. In:

KI-ZERBO, Joseph. (coord). Historia Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

CURTIN, P.D. Tendências recentes das pesquisas históricas africanas e contribuição à
história em geral. In: KI-ZERBO, Joseph. (coord). História Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

DIAGNE, P. História e linguística. In: KI-ZERBO, Joseph. (coord). Historia Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

DJAIT, H. As fontes escritas anteriores ao século XV. In: KI-ZERBO, Joseph. (coord).
História Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

FAGE, J.D. A evolução da historiografia da África. In: KI-ZERBO, Joseph. (coord).
História Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

GREENBERG J. H. Classificação das línguas da África. In: KI-ZERBO, Joseph.
(Coord). História Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

HAMPATÉ BÂ, A. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph. (Coord). História Geral de
África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

HRBEK, I. As fontes escritas a partir do século XV. In: KI-ZERBO, Joseph. (coord).
História Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

ISKANDER, Z. A Arqueologia da África e suas técnicas: Processos de datação. In: KI-
ZERBO, Joseph. (coord). Historia Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra. Vol. I. Publicações Europa-América.
Mira-Sintra. Mem-Martins, 1999.452p.

OBENGA, T. Fontes e técnicas específicas da história da África: Panorama Geral. In:
KI-ZERBO, Joseph. (coord). Historia Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982
.
OLDEROGGE, D. Migrações e diferenciações étnicas e linguísticas. In: KI-ZERBO,
Joseph. (coord). Historia Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

VANSINA, J. A tradição oral e sua metodologia. In: KI-ZERBO, Joseph. (coord).
Historia Geral de África: I Metodologia e pré-história de África. SP: Ática [Paris]: Unesco, 1982.

WESSELING, Henk. História de além-mar. In: BURKE, Peter. (Org). A escrita da
História: Novas Perspectivas. São Paulo, 1992.






CONSTRUÇÃO DA NAÇÃO MOÇAMBICANA (1962-1994)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011 by Fernando Marcos Nhantumbo | 0 comentários
Por

Fernando Marcos Nhantumbo


RESUMO


O presente ensaio procura demonstrar o contexto remoto e as etapas cruciais que contribuíram para o projecto da construção da nação moçambicana (1962-1994). No contexto remoto, o presente texto ilustra o nacionalismo precoce caracterizado pela resistência à ocupação colonial em África e de forma particular na África Austral nos princípios do século XX. No contexto mediato, o estudo demonstra que no caso moçambicano, o projecto da nação começa com a unificação dos movimentos nacionalistas em 1962 num contexto de luta pela reconquista das soberanias em África que vai conhecendo desafios até à introdução do multipartidarismo em 1994 e recentemente com o fenómeno da globalização.
Palavras-Chave: Nação, Nacionalismo, Estado, Soberania, Globalização.



ABSTRACT


This article seeks to demonstrate the remote context and crucial steps that contributed to the project of Construction of Mozambican Nation (1962-1994). In the remote context,this text illustrates the early nationalism characterized by resistance to colonial occupation in Africa and particularly in Southern Africa in the early 20th century. In context, the study demonstrates in
Mozambican case that, the nation's project begins with the unification of nationalist movements in 1962 in the context of the fight for reconquest of sovereignty in Africa that will knowing challenges until the introduction of multiparty system in 1994 and recently with the phenomenon of globalization.
Keywords: Nation, Nationalism, State, Sovereignty, Globalization.


Para a compreensão do contexto remoto da construção da nação moçambicana, foram seleccionados alguns autores que caracterizam o nacionalismo africano.

No presente estudo, começa-se por avaliar o nacionalismo africano entre as duas guerras nas actuais nações da África Austral, que em parte serviu para lançar bases para a criação dos movimentos de libertação rumo às independências depois da Segunda Guerra Mundial e para a construção das actuais nações na região onde DAVIDSON et all (1985: 679-715), no artigo sobre Política e nacionalismo nas Áfricas central e meridional, 1919-1935, compara e explana as diferenças que marcaram a vida política nos actuais territórios da África Austral naquele período. Demonstram que os diferentes impérios coloniais com diferentes estatutos políticos, as formas de administração colonial e a forma de interacção com os colonizados, influenciaram também a natureza dos movimentos anticolonialistas nesta região. Para explicar a fase embrionária do nacionalismo na região, olham para o aspecto económico e afirmam que, a expropriação de terras ricas aos africanos e forte dependência económica destes em relação ao corredor económico estabelecido pelos holandeses desde 1652 e mais tarde pelos britânicos nos finais do século XIX devido à existência de recursos minerais na África do Sul, cedo criou condições para o desenvolvimento de um proletariado permanente e uma classe intelectual próxima da população indígena com laços internacionais sobretudo a nível da região.

O autor (Ibid.) acrescenta que a oposição à dominação colonial na África do Sul influenciou o nacionalismo e a política nos territórios vizinhos, embora reconhecem que tudo esteve em função das condições reais impostas pelos respectivos colonizadores nos diferentes territórios. Aponta ainda algumas similaridades do nacionalismo regional que expressou através das resistências dos camponeses, religiões tradicionais locais, o surgimento na década 30 de organizações elitistas e proletárias e a migração de trabalhadores dos territórios vizinhos para a União Sul-Africana que, ao regressarem para os países de origem levavam consigo uma simbiose regional de luta contra a dominação colonial. Os mesmos autores (Ibidem) não evidenciam a influência dos territórios vizinhos da União Sul Africana na visão nacionalista deste território.

De forma específica comparam as particularidades entre as colónias portuguesas na região da África Austral, Angola e Moçambique que em parte tem uma visão de conjunto no aspecto político e económico devido às fraquezas do Estado colonial, da repressão colonial portuguesa contra qualquer oposição política, trabalho forçado e a política de assimilação que tentava conquistar a nascente burguesia africana como forma de evitar exigências de carácter nacionalista.

No caso de Moçambique que difere em alguns aspectos do caso angolano, apontam particularidades no marco temporal estudado por estes autores, o nacionalismo era difuso e esporádico para escapar à nova ordem capitalista. Era caracterizado pela recusa das populações ao pagamento de impostos, migração para países vizinhos como forma de escapar do trabalho forçado, uma série de greves urbanas a partir de 1911 que em parte difundiram as primeiras formas do proletariado, a oposição intelectual nas cidades que mais tarde veio a estabelecer ligações com os movimentos pan-africanistas e disseminação de igrejas separatistas que imitavam o modelo sul-africano de repulsa contra a presença estrangeira. Portanto, os autores defendem que a integração precoce dos africanos desta região na economia capitalista, capitalizou o nacionalismo que veio a servir de base para a construção das nações na África Austral demonstrando que o nacionalismo vem antes da nação.

Destaca-se um outro estudo similar feito por TWADDLE (2010:262-294), que embora analisa e compara não só o nacionalismo da África Oriental assim como o da África Austral, destaca que na fase embrionária, o nacionalismo é visto como noção de pertença a um grupo regional distinto com afinidades culturais. Face à subjugação colonial ou seja a experiência de dominação feita pelo mesmo colonizador, nas fronteiras delimitadas na Conferência de Berlim, uniu os africanos na tomada de consciência de lutar pela autodeterminação das suas soberanias. Podemos olhar o nacionalismo africano numa perspectiva similar e global de libertação de África, mas pode ser analisado segundo as especificidades de cada país e do grau de colonização vigente sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial.
O autor demonstra que as clivagens e um nacionalismo mais radical foram mais notáveis na África Oriental e ambas regiões conheceram uma interacção entre as elites tradicionais e as modernas vindas da diáspora que assumiram grandes responsabilidades na edificação das novas nações depois da Segunda Guerra Mundial. No caso da África Austral, compara o nacionalismo nos territórios colonizados pela Grã-Bretanha desde o final da Primeira Guerra Mundial e esclarece que o aumento da ingerência britânica no capítulo da dominação, levou as elites locais a exigir autonomia das soberanias.

Pretende-se olhar para o nacionalismo como condição para existência de uma nação e sobre este assunto, embora não aborde o assunto no contexto da historiografia africana, HOBSBAWM (1998) na sua obra: Nações e Nacionalismo desde 1780, concede particular atenção às mudanças e às transformações do conceito, em especial nos finais do século XIX. Argumenta que o nacionalismo deve sustentar de forma congruente a unidade política e nacional, aspectos que caracterizam o nacionalismo africano. Noutro desenvolvimento, o nacionalismo apreende às vezes culturas pré-existentes e as transforma em nações, em alguns caso as inventa, isto é, o nacionalismo vem antes das nações, no exemplo do nacionalismo da África Oriental, as culturas pré-existentes se tornaram alavancas para lutar contra a ocupação colonial.

O facto de o nacionalismo aglutinar esperanças, no exemplo da unidade entre colonizados, de contemplar necessidades e interesses de pessoas comuns não necessariamente nacionais e menos ainda nacionalistas, mostra que o conceito de nacionalismo pode mudar e deslocar-se no tempo. Portanto, deste autor tenta-se apreender as mutações que os conceitos de nacionalismo e nação apresentaram até ao momento.

A evolução do conceito explica-se pelo desenvolvimento desigual da “consciência nacional” entre grupos e regiões sociais onde na primeira fase, o nacionalismo desenvolveu-se puramente na forma cultural, na segunda etapa evoluiu com o surgimento das ideias nacionais e campanhas políticas em defesa dessas ideias e na última fase, principalmente nos povos colonizados em África, quando os programas nacionalistas adquirem sustentação das massas, as últimas duas fases são cruciais na cronologia dos movimentos nacionais.

Entende-se que o autor discute o conceito da nação num período onde predomina a visão eurocêntrica, afirma que a autodeterminação das nações apenas se ajustava para as nações consideradas viáveis cultura e economicamente; a construção de nações pelos movimentos de expansão, justificava que as nações pequenas só tinham a ganhar fundindo-se com nações maiores. Portanto, aqui se explica a razão que levou os africanos a enveredar por um nacionalismo que clamava autodeterminação. Talvez influenciado pela corrente eurocentrista, este autor, não considera nação aos estados modernos que emergiram da descolonização, especialmente depois de 1945.

Na mesma linha de pensamento, POMER (1994), na sua obra: O surgimento das nações, classifica a nação como forma particular de um agrupamento humano com uma consciência própria e procura ilustrar que os estados que-se pretendem nacionais surgidos depois da Primeira Guerra Mundial não superaram o estágio tribal e assim se está em presença de estados sem nações, alias actualmente a existência de um Estado não implica necessariamente que os seus habitantes tenham uma homogeneidade cultural que caracterizava as nações anteriores ao século XVIII.

O autor defende que a característica de uma nação é identidade comum e reconhecimento entre os co-membros embora reconhece que as fronteiras da nação transpõem fronteiras da comunidade local.

O actor mostra que o comércio se tornou um factor catalisador para evolução do conceito da nação porque faz circular mercadorias e por sua vez condicionam a transnacionalização das culturas. Por
outro lado, as migrações contribuíram para a ruptura do conceito da nação na menor escala que autogera-se com a inclusão de diferentes condições sociais que participam em experiências comuns numa dimensão macrossocial. Daqui pode-se compreender que este autor mostra a evolução e abordagem que o conceito da nação recebe com a transposição da nação vista na comunidade cultural para uma nação multicultural onde se enquadra o contexto em que os africanos ganharam a consciência de reaver suas soberanias.

No contexto mediato da construção das nações em África e de forma particular e Moçambique, concordando com o autor anterior, HEYWOOD (2002), demonstra a ambiguidade do conceito da nação no contexto da globalização onde ultrapassa-se a acepção da nação cultural para uma nação política onde a noção de pertença a uma nação torna-se uma construção dos próprios indivíduos de livre vontade. Enaltece o nacionalismo anti-colonial que-se desenvolveu depois da Segunda Guerra Mundial, onde no continente asiático e africano lutava-se pela autodeterminação das nações que até naquele contexto eram subjugadas. Este autor, ao oferecer acepção moderna do conceito da nação, supera positivamente HOBSBAWN ao reconhecer que as nações surgidas depois da Segunda Guerra Mundial em África, tem o direito à autodeterminação e de forma resumida relegando a concepção cultural e grupal da nação comenta: Ultimately, nations can only be defined subjective by their members. In the final analysis, the nation is a psycho-political construct. Is a group of people who regard themselves as natural political community (p.106).

Com base nesta afirmação pode-se concluir que este autor defende que a nação é uma construção virtual que depende da acepção que os seus membros lhe conferem, portanto a questão da religião, hábitos e costumes deixa de ser a base para edificação da nação.

A capacidade dos africanos de ultrapassar a etnia é enaltecida por LAVROFF (1975) na obra: Os Partidos Políticos da África Negra, quando analisa a natureza e o papel dos partidos políticos em estreita relação com os caracteres da colonização e com as condições em que os territórios se encaminhavam para a independência. Demonstra que todos os partidos africanos embora de base étnica eram nacionalistas e esperavam obter a independência em função das condições objectivas impostas pelos respectivos colonizadores nas respectivas fronteiras.

Apresenta algumas incompatibilidades do multipartidarismo no período posterior às independências em África e as vantagens reconhecidas do monopartidarismo na consolidação da consciência nacional espontânea, torna-se expressão da nação e um meio de aceder à unidade nacional e ao nacionalismo, a criação da nação, a coesão nacional são consideradas um fim supremo a realizar.
Na perspectiva de esclarecer a cronologia da construção das nações africanas incluindo o caso moçambicano, GRAÇA (2005) na sua obra A construção da nação em África, demonstra usando método comparativo, que em África a construção das nações assume particularidades de acordo com a dimensão histórico-sociológico de cada projecto nacional e adianta que no caso moçambicano, o Estado é que tem vindo a promover a formação da nação. Aponta ainda que se assiste uma ambivalência cultural na medida em que os moçambicanos assimilaram a cultura portuguesa resultante da colonização e a partir de condicionalismos tradicionais que culminam numa interacção com o alegado colonial. Demonstra ainda que os valores africanos e europeus, actualmente se resumem entre a tradição e a modernidade.

Este autor identifica quatro etapas da génese da construção das nações em África que também se enquadra o caso da África Austral: as resistências pré-coloniais, as reivindicações nativistas ou protonacionalismo, a formação do movimento de libertação nacional e o período pós-independência. Antes da presença colonial portuguesa em Moçambique, não havia unidade nacional, a questão da expansão e conquistas entre os impérios pré-coloniais eram fenómenos generalizados em toda a África. Deste modo, este autor embora não demonstra de que modo as resistências pré-coloniais de forma consciente ou inconsciente contribuíram para a edificação das futuras nações, defende que a formação da nação moçambicana teve o seu início no período colonial e com a independência nacional que marcou uma nova fase da expansão da identidade cultural e nacional.

Embora o autor reconhece que a construção da nação é um processo recente que agrega diferentes factores de interacção, entende o caso moçambicano como resultado da herança colonial e africana. Deste modo não equaciona a contribuição ou influência das outras “nações” da região na edificação da nação moçambicana.

No contexto da historiografia moçambicana e na tentativa de esclarecer a noção de estado e de nação que no censo comum se confundem, SAMBO (1991:278-281) no seu artigo sobre Algumas Considerações sobre o conceito Estado-nação, procura demonstrar as similaridades no processo de formação de nações na África subsaariana devido à divisão de África imposta na Conferência de Berlim onde as nações africanas incluindo Moçambique, foram sujeitas a emergir dentro de fronteiras estatais coloniais bem definidas, geralmente habitadas por povos constituídos por diversos grupos étnicos com culturas e idiomas diferentes. Neste caso, o autor confirma que os africanos foram retalhados sem o seu consentimento e a longa presença colonial, moldou a consciência unitária na luta contra a ocupação europeia.

Embora reconheça que no caso de Moçambique, o conceito de estado-nação esteja ligado à unidade nacional, o autor (Ibid.) questiona se o povo moçambicano é sinónimo da moçambicanidade tendo em conta que a nação é uma comunidade estável dos homens onde o factor económico é um traço importantíssimo. O posicionamento deste autor, ao falar da economia, encontra enquadramento no posicionamento de POMER (1994) quando afirma que o comércio é que foi o motor da mutação do conceito da nação ao transcender a concepção comunitária para uma comunidade ainda maior onde cada co-membro se define livremente como parte integrante da mesma nação e destaca três períodos que marcam o nascimento da nação moçambicana: o nascimento e consolidação da consciência da consciência nacional; a luta de pela conquista da independência nacional e o período pós-independência.

Analisadas as premissas que favoreceram a construção das nações africanas e de forma particular na África Austral que em parte o caso moçambicano encontra similaridades, NGOENHA (1998: 17-34) no seu ensaio sobre a identidade moçambicana: já e ainda não, descreve os processos complexos que nos levaram à criação do projecto da nação moçambicana em 1962. Admite que internamente, o projecto era e continua fragilizado pelos micro-nacionalismos e pelo economicismo individual. Por outro lado, externamente, o projecto da construção da nação moçambicana é influenciado pela globalização económica e usurpação do espaço político nacional que pode significar o retorno do colonialismo. Argumenta que a moçambicanidade é um conceito moderno porque engloba todos os que estão no mesmo espaço geopolítico de colonização e propõe ultrapassar as particularidades pela política.

Avaliando o posicionamento deste autor, deduz-se que a existência de diferentes etnias representando diversidade cultural em Moçambique, aliado à vastidão territorial, torna o projecto da construção um desafio de futuro. O economicismo individual referido pelo autor, remete à ideia de acumulação e distribuição desigual da riqueza, factor que gera diferenças significativas na construção de uma consciência nacional comum. A globalização que transcende as fronteiras nacionais, faz com que as soberanias percam de certa forma a autonomia política, económica e cultural num contexto em que o grau de interacção cultural na aldeia global pode retroceder o projecto da edificação da nação moçambicana.

O autor, que usou fontes escritas na elaboração deste artigo, não discute o contexto remoto da construção da nação moçambicana e seus fundamentos onde certamente, se podia desvendar a possibilidade de ter existido um nacionalismo precoce no contexto pré-colonial conforme apontam outros autores quando se referem a África em geral. De seguida o seu posicionamento encontra algumas similaridades quando discute o contexto mediato em que desponta o nacionalismo moçambicano que resulta da reacção à dominação colonial portuguesa nas fronteiras traçadas pela colonização, facto comparável com outras nações emergentes em África.

Explicando a longa trajectória da edificação da nação, o autor apresenta os eventos significativos que acabaram determinando o nascimento da nação moçambicana. Defende que as suas instituições começaram com o movimento formulado com a unificação dos três movimentos nacionalistas em 1962, num do contexto da guerra fria em que, apesar da independência nacional de Moçambique em 1975 precedido de luta armada que durou dez anos, os regimes da África do Sul e Rodésia do Sul que, no período pós-independência financiaram a agressão e conflito interno em Moçambique, contribuíram para radicalização da componente anti-tribal. O fim da era de orientação socialista e a introdução do sistema multipartidário em 1994, demonstrou que a moçambicanidade é virtual, pela primeira vez num ambiente paz foi possível a convivência na diversidade e assim o projecto da edificação da nação moçambicana enfrentava novos desafios.

Nestas etapas o projecto da construção da nação moçambicana não se rompeu apesar das suas fragilidades. O problema que-se coloca agora é de saber se este projecto tem futuro face aos problemas modernos de globalização, regional através da SADC e internacional onde a nova ordem económica pode determinar a viabilidade do projecto da moçambicanidade. Há uma necessidade de renovar o projecto da construção da nação e adaptá-lo à reelaboração das culturas espalhadas pelo território num contexto em que a ideologia das massas é determinada pelos mercados.

Pode-se compreender que se no passado a consciência nacional se consolidava face à dominação colonial e luta pela libertação nacional, hoje, a consciência nacional e unitária, condição básica para a formação da nação moçambicana, gira em volta da estabilidade económica de todos, pelo acesso aos recursos com as mesmas possibilidades.

Outra contribuição para o estudo da formação da nação Moçambique feita por MACHILI (1995:377-421), no seu artigo sobre a Unidade e diversidade: Centralização e descentralização no processo eleitoral 94 em Moçambique, refere que entre 1880-1960 há referências preciosas sobre os estados pré-coloniais africanos que se tornaram base específica das futuras nações embora, não demonstra os processos históricos que catalisaram essas bases específicas. Num outro desenvolvimento defende que a resistência à ocupação colonial serviu de plataforma de participação dos colonizados na elaboração de uma consciência nacional, embora a política e a cultura não eram a prioridade, o objectivo principal era a reconquista das soberanias.

Demonstra que entre 1960-1987, assistiu-se a reconquista das soberanias e a construção das nações africanas dentro das fronteiras coloniais e do consenso comum nasceu o patriotismo. Nesta fase a unidade evoluiu substancialmente com o patriotismo, a única diversidade emergiu nas vertentes política e cultural que em parte, dificultavam a concepção de um projecto de edificação da nação. A etapa de 1987-1995 tornou-se laboratório de ideias sobre a unidade nacional dentro da pátria, caracterizada pelas rápidas mudanças das instituições políticas, reformas das constituições, adopção do sufrágio universal e directo, mais do que consciência de nação, cresceu a consciência de pátria que abrange todos.

O autor entende que no caso moçambicano, entre 1962-1974 houve consenso, sedimentação e institucionalização da unidade entre os movimentos nacionalistas que culminaram com a fundação da FRELIMO, ressalvando que sem unidade não seria possível vencer o colonialismo português. Depois da independência, entre 1975-1990, houve aprofundamento da unidade nacional e consciencialização patriótica para a nova nação em construção, anti-regionalista, anti-racismo, anti-tribalismo e anti-obscurantismo visando a criação do Homem Novo. O período que marca o início da democracia multipartidária entre 1990-1995, verifica-se o reconhecimento da diversidade cultural num contexto de unidade e diversidade. A pacificação, eleições e governação se tornam prioridades para construção da nação moçambicana.

Para a compreensão da génese da nação moçambicana se revela importante a visão de MONDLANE (1975), considerado arquitecto da unidade nacional, em Lutar por Moçambique. Descreve ao longo desta obra, a génese e evolução do nacionalismo moçambicano onde, o sofrimento comum do domínio português, é que produziu a comunidade territorial que devido à vastidão e comunicação, teve dificuldades em desenvolver uma consciencialização única. Usa o método cronológico para demonstrar as diferentes etapas e os respectivos actores da evolução do nacionalismo moçambicano onde destaca as primeiras associações políticas por volta de 1920, o período posterior à Segunda Guerra Mundial onde, segundo o autor, o massacre de Mueda foi o momento crucial para o rumo à unidade.
Destaca a unificação dos três movimentos nacionalistas e fundação da FRELIMO em 1962 como sendo o momento da concepção embrionária da construção da nação moçambicana e depois descreve as fases subsequentes caracterizadas pelas clivagens dentro do movimento nacionalista como espelho da existência várias nações dentro das fronteiras coloniais do actual Moçambique. Portanto de forma muito clara, indica os factores que geram a consciência nacional entre os moçambicanos. A sua morte em 1969, interrompeu de certa forma a visão que partilharíamos sobre o tipo de nação que-se pretendia construir face às experiencias desde 1962 até 1969.

Os ideais de MONDLANE são complementados pela FRELIMO (1977), uma obra que se faz uma retrospectiva existencial da FRELIMO enquanto movimento aglutinador de várias sensibilidades nacionalistas e organização de todo o povo moçambicano em 1962. A obra destaca que, foi onde durante o 1° Congresso da FRELIMO se sublinhou o pressuposto da unidade nacional que preza pela união de todos os moçambicanos sem descriminação de qualquer origem, como condição do sucesso da luta de libertação nacional contra a dominação portuguesa. Na mesma ocasião, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), condenava todas as tendências tribalistas e regionalistas que certos camaradas manifestassem na realização das suas tarefas.

Demonstra que por volta de 1968, o projecto da nação, que encerrava clivagens devido às diferentes interpretações e objectivos entre elites formadas na diáspora com preparação intelectual em linhas políticas diferentes, encontrava também forte oponência das elites tradicionais cujo conceito da nação se resumia à região de origem. As constantes divisões e crises no seio da frente de libertação, a formação de novos grupos nacionalistas que foram se dissipando com o tempo e diversos assassinatos, marcaram o difícil percurso do projecto da nação moçambicana.

Durante o 2° Congresso em 1968, Eduardo Mondlane era visto como construtor do novo Moçambique e já se reconhecia que era um desafio para reconstrução nacional, numa alusão aos territórios que era libertados paulatinamente, porque a situação geográfica e política de Moçambique no lado ocidental com diversas nações condicionava de certo modo o projecto da nação moçambicana. De forma
clara o autor reconhece que, os territórios vizinhos com suas especificidades enquanto nações, condicionavam o percurso e natureza do projecto da edificação da nação moçambicana.

A ideologia difundida através da educação como pressuposto para a consolidação da consciência nacional até 1970, fez com que a criação de várias escolas e uma nova administração nas zonas libertadas e as sucessivas derrotas das tropas portuguesas em Moçambique entre 1972-1974, tornasse realidade a edificação de uma sociedade nova.

Entende-se como lacuna deste documento, que goza ainda da existência de fontes orais, não considerar a diversidade étnica e cultural como factores que interferem no projecto da construção da nação moçambicana, a divergência de opinião era vista como obra de reaccionários e inimigos da revolução.

Por último, no presente trabalho, a trajectória da formação da nação moçambicana é estudada por SILIYA (1996) no seu trabalho sobre Ensaio sobre a cultura em Moçambique onde, não só descreve os processos do longo projecto da construção da nação numa sucessão cronológica, mas também, demonstra como o trabalho de campo por ele feito em contacto com as fontes orais, procura contribuir através de um conhecimento científico, definir a cultura moçambicana que se apresenta como soma de valores da vida sócio-económica conquistados no processo histórico da sua sobrevivência.
Relaciona a função da cultura na construção da nação e olhando para as diversas acepções atribuídas à nação, defende que a nação é um conjunto de habitantes ou cidadãos de um Estado, do mesmo território que contempla planificação comum e unitária para o desenvolvimento socioeconómico, governados por leis próprias, com laços comuns de identidade que os une tais como a história, língua, modos de vida, em fim, a cultura.

No caso concreto de Moçambique, os povos vivem no mesmo território nacional que tem fronteiras que o limitam de outros países, tem tradições históricas, a mesma experiência de opressão e exploração e herdaram o mesmo património cultural do colonizador como por exemplo, a Língua Portuguesa. A FRELIMO apareceu como elemento catalisador e força contribuinte para o avanço da edificação da nação moçambicana, desde as zonas libertadas, conquista da independência, o processo de socialização com as aldeias comunais, a concepção do Homem Novo para edificação da nova sociedade e o desafio da consolidação da unidade nacional em ambiente de paz e democracia multipartidária.

O autor (Ibid.) defende que, se Moçambique é um território com fronteiras, tem um povo que partilha experiências e tradições históricas ao longo dos anos, então os diversos processos de socialização das microculturas poderão contribuir para a construção da nação moçambicana numa altura em que, as diferenças étnicas e culturais são ultrapassadas com a visão da globalização que reforça a moçambicanidade face às outras nações. Entende-se que este autor, transmite a ideia de que com a globalização, os moçambicanos não olharão mais para pequenos aspectos culturais que os diferencia entre si, mas sim o lugar da moçambicanidade num mundo cada vez mais globalizado.

Apreciando e alistando as contribuições de alguns autores, são de consenso de que as nações africanas inclusive Moçambique, nasceram dentro das fronteiras trançadas pela colonização. A ideia de consciência e solidariedade comum nasceu pela dominação e opressão colonial dentro desses territórios. Na fase embrionária do nacionalismo nesses territórios, a questão cultural e política não eram relevantes, mas sim a reconquista das soberanias nacionais ocupadas.

Analisando factos recentes, o Estado pode ser resultado de várias nações e que-se pretende que seja uma única nação, portanto todos os autores concordam que a construção das nações ainda é ainda um projecto e também concordam que o nacionalismo vem antes da nação.

Os momentos da emergência dos projectos das nações dividem vários historiadores. Alguns defendem que os estados pré-coloniais, a vigência da colonização europeia, a fase pós-colonial e as transições democráticas, são fases cruciais da edificação das nações em África. Outros não reconhecem os estados recentes como nações porque actualmente a questão cultural volta a ser relevante para a identidade comum, portanto a nação continua um projecto. Com a globalização, os projectos nacionais ficam reforçados ou minimizados para fazer face à identidade nacional requerida na aldeia global, isto é, a bandeira e outros símbolos de Estado transmitem a ideia de uma nação perfeita no mundo cada vez mais globalizado.

Concluindo, pode-se afirmar que com a excepção de Graça (2005) que reconhece a ambivalência cultural na formação da nação moçambicana, ao reconhecer a influência de outros mosaicos culturais na edificação social em Moçambique, alguns investigadores ignoram a compenetração cultural regional na qual Moçambique faz parte. Admite-se também que as trocas de experiências com os projectos de integração regional, o comércio e as migrações podem influenciar na construção da nação moçambicana que é um projecto ainda aberto.




BIBLIOGRAFIA


DAVIDSON, A.B. et all. Política e nacionalismo nas Áfricas central e meridional, 1919
-1935. In: BOAHEN, A. Adu. História Geral da África VII. A África sob dominação colonial, 1880-1935. Ática/Unesco, Paris, 1985.896p.
FRELIMO (documentos 3° Congresso). Documentos Base da FRELIMO 1. Maputo
1977.209p.

GRAÇA, Pedro Borges. A Construção da nação em África. Edições Almedina. Coimbra, 2005.335p.
HEYWOOD, Andrew. Politics. 2nd edition. New York, 2002.443p.

HOBSBAWM, Eric J. Nações e Nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro, 1998.230p.

LAVROFF, Dmitri. Os Partidos Políticos da África Negra. Lisboa, 1975.143p.

MACHILI, Carlos. Unidade e diversidade: Centralização e descentralização no processo
eleitoral 94 em Moçambique. In: MAZULA, Brazão (coord). Moçambique: Eleições, Democracia e Desenvolvimento. Maputo, 1995.672p.

MONDLANE, Eduardo. Lutar por Moçambique. 1ª Edição Portuguesa/L, 1975.276p.

NGOENHA, Severino Elias. Identidade moçambicana: já e ainda não. In: Carlos Serra
(Dir.). Identidade, Moçambicanidade, Moçambicanização. Maputo: UEM, 1998.1988p.

POMER, Leon. O surgimento das nações. S. Paulo: Autual, 1994.91p.

SAMBO, Vitorino F. Algumas Considerações sobre o conceito Estado-nação. In; JOSE,
Alexandrino e MENESES, Paula M.G. Moçambique: 16 anos de Historiografia: focos, problemas, metodologias, desafios para a década de 90. Maputo, 1991.316p.

SILIYA, Carlos Jorge. Ensaio sobre a cultura em Moçambique. Maputo, 1996.288p.

TWADDLE, Michael et all. A África Oriental. In: MAZRUI, A.A e WONDJI, C.(Edit).
História Geral de África, VIII: África desde 1935. Brasília: UNESCO, 2010.1272p.


A difusão das culturas de rendimento em Moçambique

sábado, 15 de maio de 2010 by Fernando Marcos Nhantumbo | 0 comentários
O impacto do coqueiro no ordenamento territorial e social em Massinga

Por:

Fernando Marcos Nhantumbo

(Tese de Licenciatura em Ensino de História apresentada na UP-Maputo)

Resumo

O presente trabalho com o tema: A difusão das culturas de rendimento em Moçambique: O impacto do coqueiro no ordenamento territorial e social em Massinga, parte do postulado de que o coqueiro terá condicionado o ordenamento territorial e social em Massinga.

A discussão é desenvolvida em dois capítulos, antecedidos pela apresentação das características geográficas e históricas do distrito.
No primeiro capítulo é feita a localização geográfica do distrito e são abordadas também as características físico-geogáficas que de certa maneira condicionam as condições climáticas do distrito. Refere-se também ao facto de a evolução administrativa caracterizada pelas constantes alterações de delimitação territorial do distrito durante a época colonial, influenciar de certa forma os dados da densidade populacional que se apresenta oscilatória neste distrito.

No segundo capítulo analisa-se o contexto da difusão das culturas de rendimento em Moçambique, as principais legislações que legitimaram a generalização das culturas obrigatórias e exploração da mão-de-obra a partir de 1930. Esta análise é precedida de caracterização de uma economia colonial de capitais não-portugueses e acompanhada de uma série de legislações que espelham iniciativas de descentralização administrativa como forma de dar volta à crise que Portugal enfrentava antes da mudança de atitude em relação às colónias na primeira metade do século XX. São arrolados ainda neste capítulo as diferentes culturas de rendimento implementadas em Moçambique por Portugal com forte intervenção de capitais portugueses e exploração intensiva da mão-de-obra local.

E é no terceiro capítulo onde se apresentam as generalidades sobre o coqueiro, o seu valor económico, o seu cultivo no distrito de Massinga e analisa – se o seu impacto no ordenamento territorial e social no mesmo território. A partir de recolha de informações às populações locais foi possível apurar as condições concretas que impulsionaram o cultivo do coqueiro no distrito e por conseguinte o condicionamento na morfologia na ocupação de espaços na zona costeira.


No quarto e último capítulo faz – se a abordagem da aplicação didáctica do tema no ensino de História no âmbito da História local do distrito de Massinga e nos programas do ensino básico e secundário geral em Moçambique. É dada a relevância às fontes locais para reconstituição da história assim como é enaltecida a importância e aplicabilidade do tema em diferentes níveis de ensino de História em Moçambique.
Para elaboração deste trabalho foram programadas três etapas de trabalho: A primeira etapa consistiu no trabalho de gabinete, concretizada pela recolha de dados no Arquivo Histórico de Moçambique, nas bibliotecas da Universidade Eduardo Mondlane, Universidade Pedagógica, da Assembleia da República, do Instituto Nacional de Algodão, do Ministério de Administração Estatal e Instituto Nacional de Estatística. A segunda etapa consistiu no trabalho de campo, cuja pesquisa ocorreu no Governo distrital de Massinga, Serviços económicos de Massinga, postos administrativos do mesmo distrito e locais considerados estratégicos para conferir a fiabilidade dos resultados pretendidos. Nestes locais, foram também realizadas entrevistas semi-estruturadas com líderes comunitários e camponeses para enriquecimento do trabalho. Para efeitos de consulta, a versão completa do presente trabalho foi depositada no Centro de Recursos da Universidade Pedagógica em Maputo.



Abstract

This article with the theme: cultures of income in Mozambique: the impact of coconut in spatial and social massinga district, part of the premise that the coconut have conditioned the spatial and social massinga district.
The discussion is developed into two chapters, preceded by the presentation of geographical and historical characteristics of district. In the first chapter is made the geographical location of the district and are addressed also the physico-geogáficas which govern the climatic conditions of the district.
Refers also to the fact that administrative developments characterized by constant change of territorial demarcation district during colonial influence somewhat data density that is oscillating in this district.
In the second chapter examines the context of the dissemination of cultures of income in Mozambique, the main laws that legitimaram the generalisation of cultures compulsory and exploitation of manpower from 1930.
This analysis is preceded by characterization of a colonial economy equity-Portuguese and accompanied by a series of laws that mirror administrative decentralization initiatives as a way of giving back to the crisis in Portugal faced before the change of attitude towards colonies in the first half of the 20th century. Are arrolados still in this chapter the different cultures of income implemented in Mozambique by Portugal with strong intervention of capital intensive Portuguese and exploitation of the workforce location.
And it is in the third chapter where present general information on coconut, its economic value, its cultivation in the District of massinga district and analyzes – if your impact on spatial and social within the same territory. From information gathering to local populations be concrete conditions that drove the cultivation of coconut in the district and therefore the conditioning morphology in occupation of spaces in the coastal zone.
In the fourth and final chapter does – if the approach of implementing educational theme in teaching History in the context of the local history of the District of massinga district and in the programmes of primary and secondary education in Mozambique.
For the preparation of this work were scheduled three steps: the first step consisted in Cabinet, implemented by the collection of data in the file History of Mozambique, in the libraries of the University Eduardo Mondlane, Pedagogical University, Assembly of the Republic, the National Institute of cotton, the Ministry of State Administration and the National Statistical Institute.
The second step consisted in fieldwork, whose search occurred in the Government District massinga district, economic Services massinga district, administrative posts even district and local considered strategic to check the reliability of expected results.
These locations were also performed semi-structured interviews with community leaders and peasants to enrichment of the work. For the purposes of consultation, the full version of this work was deposited in the Centre of Pedagogical University resources in Maputo.



RELEVÂNCIA DO TEMA NO ENSINO HISTÓRIA: ABORDAGEM DO TEMA NOS PROGRAMAS DE ENSINO.

No âmbito de História Local.

A Historiografia colonial sobre Moçambique deixou uma “base fragilíssima em termos de estrutura de fontes [que] apenas é rica em discrições etnográficas, memória de viajantes e legislação colonial…” e Massinga não foi uma excepção.
O tema em estudo ao reconstituir factos que interessam à própria História do distrito de Massinga e à História de Moçambique pode possibilitar a inserção do aluno no passado da comunidade onde vive, visto que, ao interrogar as fontes locais encontrará referências em pessoas mais velhas, lugares conhecidos, identificação dos vestígios do passado no distrito, permitindo uma compreensão empática dos grupos sociais que fizeram parte de diferentes momentos da história, desenvolvendo no aluno habilidades e competências de pesquisa. O ensino deste tema, vai desenvolver nos alunos daquela região, “um espírito de observação, análise de situações e contribuir decisivamente para iniciação ao método da pesquisa histórica” .

A título de exemplo, o autor percorreu a região do Posto administrativo de Guma e notou que na povoação do Rio das Pedras, situa – se uma antiga exploração agrícola do Sr. Ferreira dentro da qual funciona a Escola Primária e Completa Rio das Pedras . Portanto, estamos perante um exemplo concreto em que ainda há referências e vestígios do passado para reconstituição da história local, fonte para enriquecimento do currículo local.

Para se perceber a importância da história local na reconstituição do passado e introdução à investigação, aprecie – se o seguinte comentário:

A História local prova a autenticidade das fontes e possibilita uma sólida iniciação à História uma vez que, em situações em que o aluno da tenra idade é confrontado com acontecimentos de regiões muito distantes… leva a que este considere esta ciência como uma mera invenção… Assim, para o caso particular da História, a comunidade em que o aluno está inserido constitui a base material e conreta, [sic] aspecto que possibilita a confirmação dos factos apreendidos na escola, sempre que o aluno desejar(Pedro, p. 88).


Partindo deste comentário pode – se deduzir que no caso concreto do distrito de Massinga, através da abordagem deste tema, os alunos poderão beneficiar – se das fontes orais locais para fazer novas perguntas à própria História.

No ensino básico, a disciplina de História deu lugar às Ciências Sociais. Analisado o programa curricular da 4ª e 5ª classes, apreende-se que o mesmo visa dotar o aluno de capacidades de compreender o homem no seu meio, suas relações com o seu passado, com base na recolha de informações na comunidade.

Só com a valorização do seu meio, o aluno poderá socializar-se com as transformações económicas, sociais e políticas da sua localidade. No caso concreto de Massinga, no âmbito da História local, na ordem do saber e saber ser vão adquirir e consolidar conhecimentos claros e precisos sobre História deste distrito; na ordem de competências e do saber fazer, os alunos deverão saber organizar seus conhecimentos e estabelecer comparações com as realidades observadas e com outras mais longínquas .

Na ordem do saber estar deverão compreender a herança histórica rica em cultura diversificada e riquezas económicas de Massinga para participarem no desenvolvimento deste distrito.

Assim sendo, na 4ª classe, unidade 3, ao fazer identificação das características geográficas da província, poder-se-á particularizar características do distrito e da localidade.

Na 5ª classe, 2ª unidade ao falar-se da noção do colonialismo e suas dimensões económicas, sócio-culturais e políticas, pode-se também particularizar no caso de Massinga, analisando relações que os portugueses estabeleceram com as populações locais. Na 3ª unidade ao abordar-se o conceito de Moçambique independente, pode-se também estudar as actividades socio-económicas e culturais das populações de Massinga antes e depois da proclamação da Independência Nacional.



4.1.2. No Ensino Secundário Geral

Na 10ª classe, tendo em conta que alguns objectivos do programa visam formar o aluno para que seja capaz de: Explicar o colonialismo e relacioná – lo com o subdesenvolvimento dos países africanos, caracterizar a actuação colonial em Moçambique nos âmbitos da administração colonial, exploração de recursos, trabalho forçado e relacionar a crise geral do colonialismo entre as duas guerras , o presente trabalho tem aplicabilidade na unidade 1 quando – se analisam as formas de exploração colonial, na unidade 2 quando se caracteriza a Crise Económica Mundial de 1929 – 1933, Moçambique durante os anos 1920-1930, as consequências da Crise Económica Mundial para África e Moçambique e quando se aborda as características do Estado novo de Salazar em Portugal e na unidade 3 quando se fala do Papel económico de Moçambique .

Na 12ª classe , ao falar-se da Dominação colonial em Moçambique a partir de 1930, das conjunturas económicas e marcos de viragem assim como medidas e repercussões da política colonial nesta fase, o presente trabalho sobretudo no seu capítulo II, contribui com alguma informação histórica ao identificar o Duplo poder do Estado colonial-companhias até 1930.

Explicando o Nacionalismo Económico de Salazar, Fascismo Português e exploração dos recursos de Moçambique, permite fazer uma análise global das repercussões de exploração colonial.

De uma forma geral, o presente trabalho tem inserção nos programas de ensino em todos os conteúdos que retratam as formas de exploração do colonialismo Português em Moçambique no quadro da economia de plantações, exploração da economia de subsistência, ao subordiná-la aos interesses da economia capitalista.

Acredita-se também que no ensino superior este trabalho pode subsidiar com algumas informações para futuras investigações. A aplicabilidade didáctica deste tema no ensino de História depende do interesse e criatividade do professor em qualquer nível de ensino.


CONCLUSÃO

Portugal começou a interessar-se pela copra em 1940, quando foram aprovadas quotas de exploração em 1939. O cultivo do coqueiro em Massinga em regime industrial foi feito por colonos para responderem com eficácia os projectos industriais de Moçambique para industrialização dos produtos do coqueiro em Inhambane. Por outro lado, a capitalização dos colonos pelo Governo colonial satisfazia em parte a crença de que o indígena não era digno de ser chamado agricultor, apenas devia canalizar suas colheitas nos postos de venda.

A região de Massinga foi considerada ideal para difusão do coqueiro por reunir condições agro-ecológicas favoráveis na zona costeira caracterizadas por climas quentes e húmidos com precipitações médias anuais de 1200 mm.

O fim das explorações agrícolas e o facto de serem zonas próprias para agricultura precipitou a ocupação desenfreada dos espaços, o que condicionou por sua vez o ordenamento territorial e social em Massinga. O coqueiro como fonte de rendimento principal para os habitantes, tornou-se fonte de disputas e, por conseguinte, uma referência ou marco para reclamar a violação ou não de um espaço. Por outro lado, o coqueiro tornou – se um elemento discriminatório para famílias vindas de outros pontos, visto que sem acordo prévio com as famílias locais não há possível aproveitamento da terra e seus bens.

O coqueiro condiciona a convivência social, visto que tudo depende dos moldes de partilha dos coqueiros entre os membros da mesma família e também, depende do respeito que se tem pelos coqueiros de outras famílias para se evitar conflitos.

Os conflitos resultam das ocupações feitas durante a guerra civil que com o seu fim, reaparecem antigos donos e expulsam actuais ocupantes sem recursos para abandonarem os espaços ou adquirirem outras terras.

Desta maneira, o facto do coqueiro ser uma cultura permanente condicionou o ordenamento territorial e social em Massinga porque, primeiramente os colonos ocupavam maior parte das terras favoráveis ao cultivo do coqueiro. Com o fim das explorações agrícolas, as comunidades locais retomaram as terras e condicionaram a ocupação conforme os vínculos de linhagem. O nível de convivência social é determinado pelo comportamento das pessoas em relações aos coqueiros.



Bibliografia


18. CLARENCE – SMITH, Gervase, O III Império Português. Lisboa 1990, 272p.

19. _________________,O proteccionismo e a produção do açúcar na África Central e Equatorial (Angola, Moçambique, Zaire, Zimbabwe) 1910-1945.In: DIAS, Jillr, R.


20. CROSS, Michael. O capitalismo colonial e a Força do trabalho: A Economia
Política nas plantações de Chá no Norte Moçambique.
In: DIAS, Jill. Revista
Internacional dos Estudos Africanos nº 16 – 17.
Lisboa, 1994. 387p.

21. CRUZ e SILVA e JOSÉ, Alexandrino. História e problemática de fontes. In: José,
Alexandrino e Menezes. Moçambique, 16 de historiografia: Focos, problemas,
metodologias, desafios para década 90.
Maputo, 1991. 317p.

22. D’ALMEIDA, J.E Caravalho. Plantas tropicais de grande cultura. Lisboa, 1931. 777p.

23. Direcção de Agricultura e Florestas. Inquérito por amostragem á agricultura indígena
1955 – 1956. IIª parte: Distrito de Inhambane, Lourenço Marques: Empresa Moderna,
1958. 291p.

24. Direcção dos Serviços de Economia e Estatísticas Geral. Estatísticas Agrícola de 1956. L.
Marques, 1960.392p.

25. Direcção Provincial dos Serviços de Estatística Geral. Estatísticas Agrícola de 1961. L.
Marques, 1965. 474p.

26. FORTUNA, Carlos. O Fio da Meada: O algodão de Moçambique, Portugal e a economia-
mundo (1860-1960).
Porto, 1993.194p.

27. HEAD, Judith. A Sena Sugar Estates e o trabalho Migratório in: Estudos
Moçambicanos (1)
Maputo, 1980. 120p.

28. HEDGES (coord). História de Moçambique. Vol II: Moçambique no auge do
colonialismo, 1930 – 1961.
2ª Edição, Maputo, 1999. 295p.

29. HOFISSO, Narciso e Sitói, Lucas. O ensino de História no primeiro e segundo graus
do ensino primário.
In: JOSÉ, Alexandrino e MENEZES, Paula. Moçambique, 16 de
historiografia: Focos, problemas, metodologias, desafios para década 90.
Maputo, 1991.
317p .

30. INDE/MINED. Programa de Ciências Sociais: I e II ciclos do Ensino Básico
Maputo, 2003.340p.

31. Instituto de Fomento de Cajú. Componente Produção – Plano Director do Caju. Maputo,
1998. 73p.

32. Instituto Nacional de Estatística-Delegações de Moçambique. Estatística Agrícola de 1964.
L. Marques, 1969.446p.

33. _____________________________Estatística Agrícola de 1964. L. Marques, 1969.446p.
34. ISAAC MAN, Allen. Camponeses, trabalho e processos de trabalho: o cultivo
forçado de algodão em Moçambique colónia (1938 – 1961).
In: José Alexandrino e
Menezes Paula. Moçambique, 16 anos de Historiografia: Focos, problemas, MATE, Alexandre. A transformação dos sistemas alimentares em Moçambique: Caso de Distrito de Erati (1930 – 1960). In: JOSÉ, Alexandrino e MENEZES Paula.
Moçambique, 16 anos de Historiografia: Focos, problemas, metodologias, desafios para
década 90.
Maputo, 1991. 317p.

35. MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO ESTATAL. Perfil do distrito de Massinga – Província de Inhambane. Maputo, 1997. 15p.

35. MORREIRA, Adriano. Política Ultramarina. Porto, 1956 315p.

36. NEWITT, Malyn. História de Moçambique. Mira - Sintra: Publicações Europa –
América. 1997. 477p.

37. PEDRO, Martinho. A conjuntura da reestruturação das autoridades tradicionais no
Sul do Médio Lúrio:
1834 – 1921. Maputo, UP, 1995.106p.




Fundamentos para a construção do currículo local: Estudo do caso do Culto dos Antepassados dos Vachopi no Nordeste de Mandlakazi

terça-feira, 11 de maio de 2010 by Fernando Marcos Nhantumbo | 3 comentários
Uma reflexão didáctica no ensino de História
Por:
Fernando Marcos Nhantumbo
(Mestrando em Educação/Ensino de História)
(Universidade Pedagógica-Maputo)
Resumo

O presente trabalho com o tema: Fundamentos para construção do currículo local: Estudo do caso do Culto dos Antepassados dos Vachopi no Nordeste de Mandlakazi, procura examinar indicadores sócio – culturais dos Vachopi que possam servir de fundamentos para elaboração de um currículo local.
Além da introdução, o presente trabalho apresenta – se estruturado da seguinte forma:
No primeiro capítulo, apresenta – se o conceito do currículo na versão de diferentes autores e sintetiza – se o posicionamento do autor olhando para o currículo do ensino básico em Moçambique.
No segundo capítulo é apresentado o estudo sobre as manifestações sócio – culturais dos Vachopi no que concerne à sua origem, factores de homogeneização da identidade cultural dos Vachopi com particular destaque para o culto dos antepassados. É neste capítulo onde se pode apreender os grandes temas de cultura dos Vachopi que podem servir de base para elaboração de um currículo local.
No terceiro capítulo, o autor apresenta fundamentos etno – históricos dos Vachopi que servem de proposta como conteúdos para elaboração de um currículo local.
Na parte final do trabalho, é apresentada a conclusão e bibliografia final.

Summary
This article with the theme: Fundamentals for building the curriculum location: case Study of the worship of the ancestors of the Vachopi northeast of Mandlakazi, seeks to examine socio cultural indicators – Vachopi could serve as grounds for elaborating a local curriculum.
Besides the introduction this work presents structured as follows:

In the first chapter is presented the concept of the curriculum in version of different authors and synthesize the placement of the author by looking at the primary school curriculum in Mozambique.
In the second chapter is presented the study on the socio-cultural manifestations of Vachopi since origin factors homogenizing the cultural identity of Vachopi with a particular focus on worship of ancestors. It is in this chapter, where you can seize the major themes of culture of Vachopi that can serve as the basis for elaborating a local curriculum.
In the third chapter, the author presents pleas ethno-historical Vachopi that serve as content for preparing local curriculum.
n the latter part of the work, is presented the conclusion and bibliography.

Introdução

O presente trabalho tem como tema: Fundamentos para a Construção do Currículo Local: Estudo do caso do Culto dos antepassados dos Vachopi no Nordeste de Mandlakazi.

A valorização e divulgação dos valores da cultura, os costumes e as tradições dos Vachopi como proposta de conteúdos para o currículo local, constituem motivações para a realização do presente trabalho.

1- Objecto da pesquisa

A herança cultural dos Vachopi é multifacetada olhando para o papel de cada membro da família nos aspectos sociais, económicos e culturais. Constituem como elementos de identificação cultural deste povo, os ritos e as cerimónias, a alimentação, as bebidas, a dança, a música, o vestuário e os adornos, os jogos e os passatempos, o modelo de construção de edifícios e as actividades económicas. Para o presente trabalho constitui como objecto de pesquisa, o culto aos antepassados na região de Chidenguele, localizada a Nordeste de Mandlakazi na província de Gaza.

2- O problema da pesquisa

A disciplina de ciências sociais no II ciclo do ensino básico preconiza a abordagem da história local nas unidades temáticas “Família” e “Escola” (PCEB,2003: 274/275), de forma que cada região faça uma construção curricular correspondente.
O que se verifica é que há fraca pesquisa da história local por parte da escola que lideraria a comunidade e os professores para a construção e a integração curricular dos respectivos conteúdos produzidos localmente. Esta lacuna contribui para a fraca abordagem dos saberes locais existentes na comunidade onde o aluno está inserido.

Partindo do princípio de que os elementos sócio – culturais dos Vachopi contém doses de saberes educativos e pedagógicos na valorização da nossa cultura que podem constituir uma história local, lança – se como pergunta de partida:
Como construir um currículo local a partir de elementos sócio – culturais dos Vachopi?

3 – Hipótese

Pode-se construir um currículo local a partir de grandes temas de cultura dos Vachopi a serem identificados pela comunidade e tratados de forma científica pela escola.

4- Objectivos da pesquisa
4.1. Geral

- Identificar elementos sócio – culturais dos Vachopi para a elaboração do currículo local.
4.2. Específicos
- Analisar o Currículo do Ensino Básico em Moçambique
- Examinar a cultura dos Vachopi como forma de valorização da história local

- Propor fundamentos para construção do currículo local com base nos elementos sócio – culturais dos Vachopi.

5 - Metodologia

Para realização desta pesquisa, privilegiou – se o método qualitativo. Para apuramento de informações fez – se pesquisa etnográfica na região, que consistiu em indagar e conversar com as pessoas que aceitaram nos conceder entrevistas e que segundo as expectativas do autor tinham perfil suficiente para fornecer informações relevantes. Também fez – se a combinação da pesquisa-acção-participativa e revisão bibliográfica pelo autor do presente trabalho.


6 – Justificativa

Para a compreensão da abordagem dos saberes locais como segmentos particulares passíveis de serem generalizados para construção de uma história nacional de Moçambique, foram consultados alguns autores: SIQUISSE (2006), CANDA (2006); IVALA (2002) e todos falam da valorização de elementos sócio – culturais de histórias locais como património cultural a ter em conta na elaboração da História de Moçambique. Neste rol de estudos pretendo contribuir com a divulgação da cultura dos Vachopi como subsídios para construção do respectivo currículo local.

7 – Relevância da pesquisa
A presente pesquisa, ao estudar os elementos sócio – culturais dos Vachopi poderá contribuir para a valorização do património cultural dos Vachopi, respeitando as diferentes tradições culturais do vasto Moçambique e contribuir para o enriquecimento do currículo do ensino básico, em especial para a comunidade dos Vachopi na região de Chidenguele em Mandlakazi. Espera – se também que esta pesquisa ajude na divulgação da realidade sócio – cultural dos Vachopi que em parte é desconhecida no ensino oficial e integrar as experiências deste povo no currículo do ensino básico.

Capítulo I

O currículo do Ensino Básico em Moçambique

Segundo PACHECO (2001), as definições de um currículo não são neutrais porque numa perspectiva é um conjunto de conteúdos a ensinar que se encontram organizados por áreas e temas de estudo (p.15-20), observando um plano ou programa pedagógico e noutra perspectiva é um sistema dinâmico, probabilístico sem uma estrutura pré – determinista.
O mesmo autor, cita GRUNDY (1987: 5) que define o currículo como uma construção cultural e um modo de organizar um conjunto de práticas educacionais humanas.
Para MACHADO e GONÇALVES (1991) O currículo é um conjunto de actividades educativas programadas pela escola, englobando componentes culturais e sociais,… É sistematização de resultados pretendidos (p. 43 – 54).

Apreciando as definições propostas pelos autores, o currículo antecipa os resultados pretendidos numa sociedade respeitado os aspectos sócio – culturais da mesma. Por outro lado, embora estes autores apresentam definições que omitem o envolvimento do Homem na manipulação do currículo, depreende-se que é para os sujeitos sociais a quem este currículo diz respeito.
O currículo quanto a nós é uma planificação educativa com uma certa finalidade num processo interactivo dinâmico que se ajusta às continuas transformações numa determinada sociedade. Assim o nosso posicionamento entra em concordância com MACHADO apud GIMENO (1988) quando afirma: Um currículo não se elabora do vazio, nem tão pouco se organiza arbitrariamente, o currículo é uma representação do universo do conhecimento (p. 42).
Assim intentamos a partir deste posicionamento concluir que o currículo é socializador porque é um processo que envolve debates confluentes que admitem inovações do mesmo currículo, tendo como epicentro o Homem numa determinada sociedade, sem contudo excluirmos o poder politico que determina de certa maneira a matriz do currículo.
O currículo do ensino básico em Moçambique, define a educação como um processo pelo qual a sociedade prepara os seus membros para a continuidade e cabe ao currículo enquadrar – se nas estratégias de momento para responder as mudanças económicas e é sócio – culturais num determinado contexto (PCEB; 2003: 7).
Avaliando as linhas mestras deste plano curricular, nota – se que acomoda a transformação e o desenvolvimento que a nossa sociedade vai impondo. Olhando os diversos conceitos do currículo, achamos que o plano curricular do ensino básico em Moçambique equaciona experiências globais de outros currículos e respeita os factores culturais dos moçambicanos ao dedicar 20% da carga horária das ciências sociais para o ensino da história local. O que não fica claro neste processo é a causa do desfasamento entre as intenções do currículo oficial e o real valor que as comunidades assumem na elaboração dos conteúdos locais, sendo elas a ponte de interacção entre a cultura tradicional e o ensino oficial, alias, o presente trabalho ensaia algumas propostas para o efeito.
Pensamos ainda que o currículo local estabelece que os programas devem prever uma margem de tempo para o currículo local e a escola se organizar para a introdução dos conteúdos locais conforme recomenda o PCEB (2003):
Os conteúdos locais devem ser estabelecidos em conformidade com as aspirações das comunidades o que implica uma negociação permanente entre as instituições educativas e as respectivas comunidades. As matérias propostas para o currículo local, devem ser integradas nas diferentes disciplinas curriculares, o que pressupõe uma planificação adequada das lições. (p. 27)
Partindo desta consideração, entende – se o currículo abre espaço para que a comunidade, a escola e os professores sejam actores principais na produção de conteúdos locais, o que julgamos errado é a passividade destes perante este processo. Portanto é na perspectiva de contribuir na produção de conteúdos locais que se realizou o presente trabalho, porque o professor deve com os conhecimentos que possui interagir com a comunidade para o sucesso deste processo.



Capítulo II
Breve historial dos Vachopi

Os povos hoje chamados de Tsonga,Vachopi e Bitongas resultam de diferentes experiências históricas para compreensão da distribuição étnica no sul de Moçambique. No caso dos Vachopi da região de Chidenguele, a Nordeste de Mandlakazi na província de Gaza, há fortes indícios de serem provenientes dos Xona – Karanga onde presume – se que duas tribos nomeadamente Valói e Guambe ao deslocarem para o Sul de Moçambique terão sido responsáveis pela disseminação dos actuais regulados dos Vachopi entre Xai – Xai e Inharrime.
Os Vachopi são um conglomerado de tribos ou segmentos de tribos emigrados de pontos vários de África, o termo Vachopi foi lhes atribuído pelos angunes pelo facto de arremessarem flechas. Os grupos mais representativos foram três e todos vinham da região dos Karangas: os Valói, os Langa e os Guambe.
As características que confirmam a ligação dos Vachopi com os Xona – Karanga são: o uso de arco e flecha como arma principal, prerrogativa do chefe e … descoberta de espíritos possessivos por meio de fustigação com cauda felpuda de animais e da sua subsequente aspiração pelo adivinho.
Pode – se deduzir desta maneira que os Vachopi resultaram do abarcamento de vários clãs e sub clãs ou linhagens que pelo facto de ocuparem um único território construiu a sua própria identidade com base na língua, cultura e sujeição aos mesmos chefes.

2.1. Factores de Homogeneização Sócio-Cultural dos Vachopi

Os Vachopi construíram o seu substrato cultural num processo lento de integração linguístico comum, de uma coexistência prolongada dentro de um mesmo território e através da sujeição eventual aos efeitos de guerras dos invasores angunes e do efectivo domínio Europeu. A única feição cultural que os identifica é Ku – Tchopa,( arremessamento de flechas) - razão da atribuição do nome “chopi”, assim sendo não existe uma cultura autónoma chopi distinta das demais, apenas os Vachopi, … estão conscientes do pluralismo das suas origens e do carácter formal da designação que agora lhes cabe .
Entende-se a partir deste posicionamento que os Vachopi vieram em vagas sucessivas de origem e tempos diferentes, porém, devido à longa convivência, criaram o seu próprio estilo de cultura.
Sobre este assunto, acrescenta – se que … Binguanhane, um dos netos do grande chefe Dzowo, do vale do Limpopo, Conseguiu dominar e unificar parte dos régulos Vachopi numa resistência contra Maueue, Muzila e Ngungunhane… e sintetiza – se que esta resistência colectiva contribuiu para desenvolver sentimento de identidade entre os Vachopi e para testemunhar que as características culturais dos Vachopi fazem parte dos Xona – Langa ou Xona – Karanga , aprecie – se o seguinte comentário:
São convincentes as provas da origem Xona – Langa de parte das características culturais dos Vachopi… Xilofone recurso do tipo Karanga, Juramentos junto do Grande Tambor Sagrado, certos termos como Muzimo (Antepassado – deus), Phongo (cabrito), a forma de cumprimentar, com bater de palmas, também era semelhante a dos Xonas – Langas… os Vachopi foram conhecidos durante muito tempo por Mindongues, segundo JUNOD (Filho) o verbo Ku – Tchopa «« Atirar setas»» é de origem tsonga, foi aplicado pelos Guerreiros tsonga, foi aplicado incorporadas nos regimentos Vangunes.
A partir deste comentário pode – se concluir que os factores de hegemonia sócio -cultural dos Vachopi resultam da sua longa convivência espacial e construção de nova identidade autónoma.


2.2 – Manifestações sócio – culturais dos Vachopi

As características sócio – culturais das populações rurais do Sul de Moçambique residem na perpetuação dos hábitos de parentesco, onde reside a moralidade que observa e assegura a ordem hierárquica de cada família.
Os Vachopi se distinguem dos de mais povos Sul de Moçambique pois tem padrões de crenças, valores, formas de comportamento, conhecimentos e saberes que foram sendo passados de geração em geração.
Analisando os dois pontos de vista podemos concluir que as manifestações sócio – culturais nas zonas rurais no sul de Moçambique inserem – se numa área cultural com características universais próprias podendo adquirir algumas particularidades dentro da mesma área cultural.
Os Vachopi são essencialmente agricultores, só comem carne sempre que a ocasião se lhes ofereça resultante da criação de animais domésticos ou caça de animais de pequeno porte. As mulheres cozinham uma vez por dia ao cair da noite, o que sobra fica para dia seguinte para pequeno-almoço (Kussussula). No que concerne ás bebidas, apreciam água, as bebidas são feitas por cereais, frutos, vegetais e aguardentes.
Durante a visita à comunidade de Nhachengo foi possível colher o seguinte depoimento com um residente local, o que confirma o exposto acima:
…ATHU VACHOPI” (Nós os Vachopi) somos quase vegetarianos porque só comemos carne quando decidimos matar um animal doméstico ou de caça. “Va SIKATIVATHU” (as nossas mulheres) é que asseguram economia familiar, a comida “xiguinha” que sobra do jantar comemos no dia seguinte quando voltamos da machamba. Bebemos água do “Dhithangueni” (Reservatório, Tanque pertencente a uma família) ou do poço, que fica em Nhambavale. Nas cerimónias ou em ocasiões festivas bebemos “Ussuke” (cerveja) ou “sopa” (Aguardente}.
Avaliando as descrições acima citadas, constatou – se no campo que os Vachopi alimentam – se basicamente de “xiguinha” (refeição preparada de mandioca, amendoim e vegetais), outro tipo de refeições é preparado em ocasiões especiais como é o caso de festas ou cerimónias. A distância que se percorre à procura de água levou os Vachopi a construir reservatórios de água para sobrevivência por longo tempo. O consumo de bebidas, consumo de carnes e refeições não habituais está ligado às ocasiões festivas ou cerimoniais.
No domínio da arquitectura, os Vachopi tem conservado sem qualquer alteração, a palhota dos antigos tempos, podendo haver algumas construções de forma quadrada. A escultura dos Vachopi é utilitária visto que produz utensílios de uso doméstico e adornos.
Sobre este assunto, foi possível apurar que Nhumba (Palhota) é casa típica dos Vachopi, subdivide – se em Gozinyane (cozinha, palhota/celeiro) e Dalicence (palhota/quarto). A escultura dos Vachopi fazia por exemplo: Inkho (colher de pau grande), dhigombe (copo de Madeira), M’bere (Gamela), tchirundo (bacia feita de tecelagem); peneiras (tchisselo); cestos (Tithavango, Xirema); chapéu (Tchigoko); cordas (Madjoke) usadas da construção de habitações e outros afins.
Apreciando esta informações podemos deduzir que a arte dos Vachopi serve para as necessidades sociais diárias deste povo.
A música é uma das componentes culturais dos Vachopi…Os Vachopi são mestres de timbila (…) os pianistas se assentam em linha (…) e tocam em conjunto, com todo o bando de homens dançando na sua frente.
Para se complementar a versão deste autor aprecie – se o seguinte comentário:
Ka M’GANGA AWU” (nesta região) temos NGALANGA executada por jovens, na ausência de NGALANGA, os presentes entoam canções a acompanhadas do ritmo de batidas de palmas e dançamos “MAKHARA” (Dança Típica dos Vachopi); os Jovens pastores de gado tocam “Txigovhilo” (Flauta feita de fruta de massala), os anciãos tocam “TXITENDE” (instrumento Musical com Arco curto com extremidades ligadas por um fio feito de Fibras de Palmeiras) …timbila só é requisita para “Xidhilo” (Missa em veneração aos antepassados.
O vestuário dos Vachopi encontra similaridades com as outras populações do Sul de Moçambique:…uso de capulana e lenço pelas mulheres e uso de calças pelos homens. Para confrontar afirmação deste autor, realizou uma observação qualitativa e verificamos que o traje dos Vachopi resulta da fusão de culturas no uso de tecidos. Socialmente, a maneira de vestir tem grande significado entre os Vachopi, sobretudo as mulheres que se vestem sempre a rigor de capulana e lenço. Por outro lado concluímos que todas as manifestações culturais dos Vachopi através do traje, dança, artes, alimentação, religião e outras formas de cultura são tendentes a consolidar a identidade social deste povo.


2.3. O Culto dos antepassados dos Vachopi

No contexto das cosmologias locais no Sul de Moçambique, onde os Vachopi se inserem, quando uma pessoa morre, o seu espírito permanece enquanto manifestação do seu poder e da sua personalidade, a morte marca apenas a transição existencial, o morto exerce uma influência poderosa sobre a sociedade guiando e controlado a vida dos seres humanos.
Os mortos tornam – se “Antepassados – deuses” (chicuembos) da família, residem nos túmulos e relacionam – se com os descendentes vivos revelando – se nestes ou sob forma de animais (geralmente cobras), podem – se comunicar também através dos sonhos, levando os descendentes a consultar “tihlolo” (ossículos) e respeitar o veredicto dos antepassados.
Para melhorar compreensão deste assunto aprecie – se seguinte comentário:
A autoridade do pai, dos avós paternos, projecta – se além da morte, todos os membros da família são deificados por aqueles que vivem, formaram – se hierarquias de almas que levam o oficiante nas cerimónias de culto a invocar, por vezes um antepassado remotíssimo em vez do pai ou avo falecido. Os deuses são sempre parentes dos crentes; são cultos de índole familiar. Os cultos são feitos junto dos embondeiros ou cemitérios .
Outro testemunho sobre o assunto afirma:
O culto aos antepassados permanece como parte integrante do sistema de parentesco: todas as pessoas adultas que morrem se tornam deus refiram aos seus inimigos (…) são guardiões e protectores dos membros da família, aliados e mediadores; não influenciam, ninguém que não pertence ao seu parentesco, apenas quando alguém faz mal aos parentes ou a si mesmos .
Disto infere – se que entre os Vachopi, os mortos tornam – se deuses e protegem os seus descendentes ainda vivos.
Durante a pesquisa verificamos que a natureza divina dos antepassados – deuses entre os Vachopi caracteriza – se pela posse de atributos divinos depois da morte, encontram domínio infinito, ascendem a categoria de chicuembos, são omnipotentes, tem domínio dentro da mesma linhagem com mesmo chibhongo (apelido) e para eles a distância não existe, estão presentes em toda a parte, são semelhantes ao céu, sol e lua .
Os elementos fundamentais do culto dos antepassados são: 1º - Consultam – se ossículos que revelam qual dos antepassados – deuses, como, quando e por quem o sacrifício deve ser feito; 2º o oficiante, em regra o mais velho da família, preside a cerimonia e 3º - as vitimas são trazidas pelos designados e pelos voluntários.
A partir destes dados podemos perceber que estes antepassados não passam de humanos, são apenas espíritos alvos de adoração, são cultos particulares e as suas prescrições visam salvaguardar e reforçar hierarquias, traço fundamental da ordem social entre os Vachopi.
Para testar os posicionamentos de autores até aqui citados, procuramos avaliar a dimensão do culto aos antepassados no regulado de Nhachengo, em Chidenguele, a Nordeste de Mandlakazi na província de Gaza.
Para Kuphahla (culto doméstico celebrado pelo pai com assistência de todos os membros da família), oferece – se fola (rapé) a ou Uputsu (cerveja feita cereais), faz – se este culto em ocasiões de nascimento de uma nova criança, viagem longa ou procura de sorte, segurança e estabilidade para levar diante a vida; Xidhilo ou Mhamba (culto ou ritual que junta todos os descendentes da linhagem, e todos contribuem com algo) realiza – se ao amanhecer no local prescrito pelo Tihlolo (ossículos de adivinhação que redefine a prescrição social a ser seguida para reparação do mal) sacrificando – se animal, espalhando sangue, servir refeição aos espíritos no Magaandeloni (cemitério familiar); o oficiante indicado preside e invoca durante o culto, todos os nomes dos mortos da família começando por Hahani (irmã mais velha do avô paterno). Todos os membros da linhagem podem expressar seus sentimentos, geralmente estas cerimónias são dirigidas Nyamussoro (curandeiro).
Na mesma ocasião foi possível assistir o culto Kuphahla por ocasião da chegada de um membro da família ausente a longa data:
O Chefe da família com Dhigombe (copo feito de madeira) com algum vinho por sinal trazido pelo recém-chegado, bebeu um pouco e soprou algum junto da árvore, local de culto dos antepassados onde todos os membros encontravam – se rodeados e disse:
“Ngani Phendanhani wa dhi Tina (Sou eu Phendanhane de nome)
Nguyo Nduwo Niminingako (Eis a oferenda que vos dou)
wae Hahani Mabady Ni Mhuana Wako (Tia Mabady e seu marido)
Nindiako combele Ningamu Yakwe (com seu irmão combele e Família)

Nawe Kokwana Combele Nivhanana Vhako: Maxuanhani Ni Njacalazi (você vovov combele e seus filhos Maxuanhani e Njacalazi)
Tasanganani Motseno Ahawua (Cheguem todos Aqui)
MaxoKwanhani, Ntukulu Wano Abuakile, Akhene Ndyo Vinho mina tima Dhitora (Maxokwane, vosso Neto, chegou e vos dedica este vinho para matarem sede)

Akombela ku, Mwengetela Tindjombo Ka mithumu Yakwe (pede que lhe dêem mais sorte nos trabalhos e vida dele)
Kahi Kedy intho, Tsungetani motseno (Não excluímos ninguém aproximem – se todos, aqui está a oferenda do vosso neto Maxokwanhani.

Durante o culto, oficiante foi despejando o vinho aos poucos para os antepassados, os restantes membros deviam estar a volta do oficiante calados como sinal de respeito pelos antepassados – deuses.
Depois daquele culto, foi nos explicado que qualquer familiar pode fazer oferendas aos antepassados por intermédio do oficiante indicado; as oferendas podem ser regulares nos utensílios (gamela ou panela de barro furados) dos antepassados; outros bens como dinheiro; galinhas e tabaco servem de oferendas também.
Podemos finalmente concluir que o culto aos antepassados serve solicitar paz, abundância, protecção e sorte para a família.
Desta forma podemos concluir que o culto aos antepassados é dirigido pela personalidade mais idosa da família ou linhagem numa cerimónia denominada Kupahla.


Capítulo III
Fundamentos para construção do currículo local

A abordagem da história local, facilita a apreensão e o domínio de conceitos até certo ponto, abstractos como é o caso do tempo e o espaço, com uso da língua local com significações do contexto quotidiano, Unkama e umganga ,faz com que a história deixe de ser abstracta, porém implica diagnosticar a realidade cultural local (Felgueiras, 1994: 40 – 42).
Concordando com o autor acima, a educação autóctone vem plasmando vários conceitos ao aluno, neste caso em Chichopi, desde a nascença ate à idade para o ingresso no ensino oficial, o que achamos errado, era o desprezo a que estes conceitos eram votados quando o aluno ingressasse no ensino oficial.
O currículo local não indaga apenas o passado porque os testemunhos vivos que vão contribuir neste processo, vão transmitir conhecimento explicativo e útil para o presente. Isto significa que um currículo local que consagrasse os elementos sócio – culturais dos Vachopi teria em conta os seguintes elementos:
1 – A língua:
Os Vachopi, fazem parte de um mosaico multicultural moçambicano com uma língua, denominada Chichopi, que de acordo com estudos sócio – linguísticos faz parte do projecto para o ensino bilingue e esta língua é falada nas províncias de Gaza e Inhambane. Tendo em conta que a língua é um veículo de transmissão de culturas, a preservação da língua Chichopi é visto como um direito humano.
2 – A cultura
A cultura é um universo de objectos materiais e simbólicos, carregados de sentido e informação herdados pela comunidade e por esta transmitidos aos seus membros, que se tornam seus portadores (CANDA, 2006: 26).
Os Vachopi são um grupo etno – histórico que tem cultura própria que se desdobra em praticas sócio – económicas, ritos e cerimónias, divisão social do trabalho, dança e estereótipos relacionados com o género. No capitulo da cultura, o currículo local vai dotar o aluno de conhecimentos em relação:
Á sua origem e valor da sua língua; à relação que o homem local tem com a natureza; às formas de poder, sucessão e herança; às formas de posse de terras; à formação de linhagens, sistemas de parentescos, casamentos e atribuição de nomes; às cerimónias, rurais, religiões, mitos locais e ritos de iniciação; às praticas sócio – económicas: Comércio, construção de casas, agricultura, pecuária, pesca e migração; à divisão social e técnica do trabalho tendo em conta os estereótipos em relação ao género; aos provérbios, contos, jogos, danças e canções locais; ao uso de nomenclaturas chopi na abordagem de alguns conceitos durante o processo de ensino aprendizagem.
3 – Educação autóctone
No capítulo da educação autóctone, notamos que aluno ao entrar para o ensino oficial, traz consigo grandes indicadores de desempenho e competências respeitantes a sua identidade cultural. Através dos provérbios locais, ritos de iniciação, rituais e praticas sócio - económicas, a educação autóctone desempenha um papel primordial na transmissão de usos de costumes as gerações de forma continua e a partir do ensino oficial, o aluno aprende nos valores respeitando as crenças de outros indivíduos, dai que currículo local deve valorizar os saberes locais transmitidos pela educação autóctone.
Na realidade educativa moçambicana existem dois currículos que vigoram em simultâneo principalmente nas zonas rurais: Um pelas escolas autóctones – tradicionais baseando nos mitos e ritos de iniciação e o outro pelas escola oficial moderna (CANDA, 2006: 5).
Podemos depreender que no caso particular dos Vachopi, transmitem conhecimentos e experiências acumuladas pelas velhas gerações as novas gerações e são essas experiências que o aluno traz consigo quando ingressa na escola. A história local pode resgatar o currículo oculto da educação autóctone que em simbiose com o currículo oficial possa de facto construir um currículo local que inspire as aspirações da comunidade dos Vachopi em Chidenguele, conforme os grandes temas de cultura chopi referidos neste trabalho.
Desta forma pensa – se que o facto dos Vachopi possuírem uma autonomia sócio – cultural, que caracterizamos no capítulo anterior, o currículo local e eles respeitante pode acomodar os saberes locais que manifestem uma atitude positiva e de tolerância em relação às outras culturas no contexto do currículo oficial.
Por outro lado são propostos como objectivos gerais do currículo local no ensino das ciências sociais:
a) Educar o aluno a ter orgulho e respeito pela tradição e cultura chopi, respeitando outras tradições e culturas, desenvolvendo atitudes positivas na comunidade.
b) Educar o aluno ter respeito pelos direitos humanos na sua comunidade e noutras distintas.
c) Proporcionar conhecimentos sobre a história do seu povo para uma plena integração do aluno na comunidade com membro activo.
d) Participar positivamente nas actividades económicas da comunidade, desenvolvendo autonomia e auto – estima crescente.


Conclusão

A abordagem do currículo pela sua etimologia suscita, vários debates em relação à conceituação do mesmo, porém pelos efeito práticos do mesmo podemos chegar um consenso de que é uma construção cultural porque socializa o conhecimento e as experiências de uma sociedade e antecipa resultado de várias consultas à sociedade em último e gerido pelo poder politico.
No caso da currículo do ensino básico em Moçambique, conclui-se que deixa uma margem de 20% do tempo lectivo de cada disciplina para implementação de conteúdos locais, porém o que acontece, na óptica do autor falta o papel activo da escola inserida na comunidade aliado a fraca preparação dos professores em parte para a produção de conteúdos que possam configurar o currículo local.
A perpetuação da autonomia cultural consolidou um legado de manifestações – sócio culturais entre os Vachopi, que se distinguem de certa maneira das outras populações do Sul de Moçambique.
O culto dos antepassados dos Vachopi não se difere tanto dos outros cultos das zonas rurais do Sul de Moçambique, adquire seus aspectos específicos em função da língua, dos outros traços culturais e realiza – se o culto através de um ritual familiar dirigido pelo chefe da família que serve de comunicações com os antepassados chamado Kuphahla.
Por fim, o autor confirma a hipótese de os Vachopi possuem um legado cultural suficiente para produção de conteúdos locais e julga que é pertinente que o currículo local no caso vertente dos Vachopi seja o resultado de experiências de aprendizagem moldadas nas respectivas comunidades através da educação autóctone cuja interacção com o ensino oficial faz com que as significações do contexto quotidiano fazem da História ou Ciências Sociais, uma disciplina não abstracta.


Bibliografia

CANDA, Candido Jasse. Educação Autóctone e a Educação oficial moderna: Efeitos dos ritos de iniciação autóctone sobre o rendimento escolar dos alunos iniciados. S. Paulo,2006.121p.
COTA, José Gonçalves. Mitologia e direito consuetudinário dos indígenas de Moçambique – Estado de etnologia mandado e laborar pelo governo-geral da colónia de Moçambique. Lourenço Marques, 1944. 260p.
FELGUEIRAS, Margarida Louro. Pensar a Historia. Repensar o seu ensino. Porto,1994.144p.
HONWANA, Alcinda Manuel. Espíritos vivos, tradições modernas possessão de espíritos e reintegração social pós guerra no sul de Moçambique. Maputo, 2002. 292p.
INDE/MINED. Programas das Disciplinas do ensino Básico. Maputo, 2003. 597p.
INDE. Plano Curricular de Ensino Basico.Maputo,2003.88p.
JUNOD, Henrique A. Usos e costumes dos Bantu: A vida duma tribo sul – africana. Tomo II. Lourenço Marques, 1946: 634p.

MACHADO, Fernando A. e GONCALVES, Maria F. Currículo e desenvolvimento curricular: problemas e perspectivas. Edições Asa, Porto,1991.302p.

MAE. Perfil do Desenvolvimento do Distrito de Mandlakazi - Província de Gaza. Maputo,2005.44p.
MATOS, Leonor Correia de. Origens do povo chope segundo tradição oral. Lourenço Marques, 1973. 101p
PACHECO, José Augusto. Currículo: Teoria e Praxi. Porto,2001.271p.
RITA – Ferreira, A. pequena História de Moçambique pré – colonial. Lourenço Marques, 1975. 84p.
SIQUISSE, Alípio E.P. Estudo de elementos sócio-culturais e económicos dos Vatswas em Inhambane: um subsidio etno-histórico para o ensino básico.S.Paulo,2006.124p.
SOUTO, Amélia Neves de. Guia bibliográfica para o estudante de História de Moçambique. 1996, 347p



Subscrever: Mensagens (Atom)

Google Tradutor

Visita direto de...

Visitas do Mundo

free counters

Deixe o seu comentario

Contacte - me


Nome:

E-Mail:

Assunto:

Mensagem:


Acerca de mim

Maputo, Mozambique, Mozambique
Ver o meu perfil completo

Blog Archive

  • ▼  2018 (1)
    • ▼  janeiro (1)
      • Perspectivas Sociais dos Ex-assimilados em Moçambi...
  • ►  2013 (2)
    • ►  junho (1)
    • ►  março (1)
  • ►  2012 (2)
    • ►  agosto (1)
    • ►  junho (1)
  • ►  2011 (6)
    • ►  agosto (6)
  • ►  2010 (3)
    • ►  maio (2)
    • ►  abril (1)
Copyright © 2010 Prof. Fernando Marcos Nhantumbo Wordpress Theme Blogger Template Credits For